TRAÇO DE UNIÃO
Frans de Lourenço
Duas vezes na semana, bem cedinho, entro no ônibus que sai do Caiçara e me deixa na Savassi, para mais um dia de trabalho. Durante o longo percurso (da Noroeste à Zona Sul), vou lendo tudo o que está pichado nos muros, nos paredões dos edifícios; onde houver um escrito qualquer, lá estão meus ávidos olhos tudo lendo, sem que eu lhes peça essa bênção. Eles só não lerão se a velocidade do ônibus for maior que a da leitura, ou se o que quer que seja encobrir o escrito, no momento exato de decodificá-lo. E isso rotineiramente acontece. No entanto, não me aborreço: não li hoje, leio amanhã, o trajeto é sempre o mesmo. Esta crônica, caro leitor, eu a queria falando dessas muitas pichações que aí estão, não atravancando o meu caminho, diga-se de passagem, mas me inspirando, aguçando a minha sensibilidade.
No entanto, o que nela abordo é somente uma das pichações que li e guardei com carinho, não só por ser a mais interessante de todas, mas também pelo que vislumbrei poder ser a partir da minha veia, se não poética, romântica.
Quando estou voltando para casa, no cruzamento da Avenida do Contorno, com uma rua da qual não sei o nome, (onde, a placa?) lá está, na parede de uma casa parcialmente demolida, o que me motiva a escrever o que agora escrevo: meia noite-me. Leio esse pedaço de frase e, um tanto inquieta e curiosa, me pergunto se o hífen aí colocado foi por descuido ou vontade. Que recado mandam essas três palavras, duas delas ligadas por um traço de união, numa justaposição, para mim, mais afetiva do que agramatical? Seriam elas fragmento de um verso, no qual um poeta-pichador ou pichador-poeta, anônimo, solitário, sentindo esvair no tempo toda a esperança de ter nos braços sua amada, agarra-se ao finzinho da noite, para chorar e cair numa escura depressão? Meia noite-me... Será que você, meu poeta-pronome, ali, apenso à noite, não tem sequer uma ponta de esperança em ter de novo aquela que um dia elegeu para seu amor? Oblíquo poeta, quão triste é seu lugar, estar assim, vacilante, ligado a um substantivo e não a um verbo, aquele que na sua amorosa transitividade tem sempre ao seu lado o companheiro da vida inteira: “ama-me. E nada mais quero... Você me completa!” São palavras que você diria à sua musa, se pudesse, todo encantado, de coração aberto, perdidamente apaixonado e feliz, porque a felicidade só nos habita, quando estamos onde está o nosso coração, e o seu está nela.
Meu querido poeta, não se desanime, persista, procure por ela, pois, como você deve saber, a vida quer de nós é coragem. E um dia (quem sabe?) meus olhos lerão naquele mesmo lugar, a sua nova confissão: “meio dia-me”. Então o sol da sua escrita me dirá que um novo tempo surge, e com ele a sua amada, que buscando pelo que lhe falta, sussurrará aos seus ouvidos: “voltei, porque todos os dias amanheço-me-te”. E você, sabedor de que fim prenuncia começo, por certo, há de tatuar na mesma parede, com toda a irreverência dos amantes: “zero hora-nos”.
