domingo, 13 de outubro de 2013

O cata-vento

O cata-vento
                                   
                                                                          

         Num dia de sol, longe de todos, passei a mão num pedaço de papel, um graveto e uma cola de lama, sentando num barranco, fiz com uma imensa alegria o meu cata-vento. Com foi lindo vê-lo rodar em direção oposta ao vento forte que desalinhava meus cabelos! Os meus olhos brilharam encantados com o novo brinquedo. 
Estava aborrecido com meu pai, o que me deixava profundamente triste. Pelo fato de ter me espancado por conta de algo que não me lembro, saí a correr pelos arvoredos e debaixo de uma árvore onde havia uma pedra majestosa, pude ver um rio em busca da natureza que se fazia lívida.
Que coisa boa sentir toda a liberdade longe do meu pai. O cata-vento com suas pontas viradas e arredondadas feitas por mim, estava perfeito! O vento fazia com que me esquecesse a dor da agressão. 
        Fiquei muito tempo até despertar para um dia de esplendor. Não lembro o que ouve e muito menos lembro o que passou. Foi como o cata-vento me encantou:

                                                                        
                                                O Cata-vento
                                                                               
                                                Cata-vento
Cata amor
Cata fora
                       A minha dor

                                                                         
                                                Cata-vento
Cata a flor
Cata agora
O meu amor


                                                Cata-vento
Cata a fé

                                                Cata-vento
Para o amor


                                                                        Cata-vento
Livra o meu amor


                                                Para o meu pai
Que sente dor
Cata no meu coração
                        Entender o porquê
                                                De tanta dor!


Lumar




Página recebida pela médium Neide, na reunião do dia 30/03/2013, na Fraternidade Espírita Nosso Lar, em Belo Horizonte.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Setembro

Setembro
                    
                                           Aninha Viola

Mastigo saliva doce,
 experimento dor. 

Aqueço o suor do vento,
cresço fruta orvalhada, 
amadureço flor!  


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Canção do exilado

                                                             CANÇÃO DO EXILADO
                                                           Frans de Lourenço

        Cansada do trabalho (mesmo aposentada, trabalho ainda), mas feliz por não dever nada a ninguém, nem mesmo ao governo, entro no ônibus para ir embora para casa. Lá dentro, além de umas poucas notícias e convites à gentileza urbana, o jornal da Prefeitura Municipal estampa o poema mais famoso de Gonçalves Dias. Começo a lê-lo. De repente, uma voz mais alta me tira da leitura:
       -Você não pode entrar por aí, moço, tem que passar pela porta da frente e rodar a roleta!
       Ao que retruca o jovem rapaz: 
      - Você não sabe quem eu sou, trocadora,de onde eu venho...
      O motorista, mais preocupado com o semáforo, agora verde, põe o ônibus para rodar, e não ouve o que diz aquele estranho passageiro, com sua voz firme:
    - Eu quero dizer a todos que estão me escutando, que fui humilhado pelos homens que me tiraram de onde eu estava. Este é o alvará de soltura que consegui, ainda a pouco, na penitenciária. Quem duvidar deste papel aqui pode pegar e ler. Articulei, e os policiais me soltaram,agora, no fim da tarde. Pedi a eles um adjutório, uma ajuda qualquer para pegar o ônibus pra ir embora para a minha terra, mas não... não me deram...não me deram nada.       Mas como podem soltar uma pessoa sem dinheiro e pedir para ela circular, sumir, ir rodando? Não sou daqui, não tenho ninguém aqui, e eu preciso voltar para a minha terra. Vocês já ouviram falar no Primeiro Comando da Capital, não é?  Não pertenço ao PCC, mas sim a uma organização parecida, que é fiel, justa e muito humana. Se eu der um tapa na cara de alguém, eles vão querer saber por que eu fiz isso. Quem faz parte dela, da minha organização, tem que andar na linha! Sou traficante e ladrão, ladrão de gente rica, de gente fina; de pobre, não roubo não! Também sei respeitar mulher, que a polícia joga na nossa cela e fica ali, presa, junto da gente. Tenho mãe, irmãs... No momento o que quero é voltar pra minha terra, o mais rápido possível, mas não tenho dinheiro. Por isso estou me humilhando, e muito, diante de vocês, pedindo um trocado, uma colaboração. Quem puder me ajudar que me ajude, quem não puder não tem importância. Que cada um escute sua consciência, seu coração!
      Quem poderia deixar de ajudar a esse homem novo, forte, recém-saído de uma penitenciária de segurança máxima? Quem ousaria não se condoer dele, diante de sua fala tão apelativa, tão incisiva?Todos que estávamos no ônibus tiramos do nosso dinheiro e fizemos fila para entregá-lo ao desditoso passageiro, que se dizia carente e humilhado. Não teve ali dentro quem não dividisse com ele o pouco que levava nos bolsos. 
     Quando se certificou da grandeza dos nossos sentimentos, o jovem rapaz, de rosto inquietante, virou-se para a trocadora e disse que não pagaria a passagem porque não havia rodado a roleta. E com um “muito obrigado” e um “fiquem com Deus”desceu do ônibus, deixando lá dentro a sua e a nossa grande humilhação, para a alegria de todos. (O que é a humilhação num momento desse?)
      O  coletivo põe-se a rodar novamente, e em vão eu tento continuar a leitura do poema do Gonçalves, através do qual, no exílio, o poeta exaltou brilhantemente a nossa terra. Isso foi no tempo em que aquele “lá”do quarto verso,ainda não era isto aqui.




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Espíritos hipnotizados

Espíritos hipnotizados
                                                                   Cristina Baracat
                                    
                                             
                         O coração tem razões
                                          que a própria razão desconhece...

            O livro Libertação, psicografado por Chico Xavier, em seu capítulo 15, entre vários temas, trata de um problema recorrente nos dias atuais: espíritos hipnotizados.
            No contexto deste livro, hipnotizar significa reter a atenção de alguém por uma espécie de atração irresistível. Assim, toda a atenção e a esperança do hipnotizado concentram-se numa ideia fixa.
            De modo geral, o hipnotismo pode ser considerado uma espécie de alienação psicológica em que o indivíduo atinge um estado de despersonalização no qual o sentimento e a consciência da realidade são diminuídos fortemente.
            Em princípio, André Luiz indaga ao espírito orientador, Gúbio, sobre o estado hipnótico de Gaspar, um espírito obsessor orientado para prejudicar uma jovem senhora encarnada. Ele é descrito de forma triste: o olhar quase vítreo, dava a ideia de paralisia da alma, de petrificação do pensamento. Vejam bem, ele era ao mesmo tempo hipnotizador e hipnotizado.
Gúbio esclarece que outros espíritos, ainda mais perversos, absorvem certos centros perispíriticos de Gaspar. Então, ele se detém numa obsessão: hipnotizar um espírito encarnado, no caso, Margarida. Como existem outros espíritos hipnotizando Gaspar, este perde a capacidade de ver, ouvir e sentir com elevação.
            Infelizmente, a cura de Gaspar será demorada, com passes contrários à ação paralisante, mas no momento adequado, conforme esclarece Gúbio.
            Lendo este capítulo, penso em quantas pessoas encarnadas se veem perdidas em estado de alienação. Elas povoam as ruas, os hospitais psiquiátricos, locais de trabalho e lares.
            Pergunto-me quantas vezes nos sentimos dominados por ideias fixas e destrutivas? Na verdade, “petrificamos” nossa sensibilidade ao ignorar sugestões acolhedoras e carinhosas ao nosso redor. Custamos a enxergar o que está à nossa frente e muitas das vezes complicamos o que deveria ser simples.

Acredito que este estado doentio, tão marcante na leitura deste capítulo, é mais comum do que parece.            No entanto, o Mestre Jesus nos deu a chave: entre a razão e o coração, fique com o sentimento.