segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Dublin




Dublin

Junho de 2018. Desci no aeroporto de Dublin e vislumbrei um céu nublado, um vento frio cortando a pele. Saudades. Minha filha e meu genro moram naquela cidade.

Conhecida como a Esmeralda da Europa, Dublin tem verões distribuídos em belos parques. O rio Liffey corta a capital, convive com a cidade e se harmoniza com a sua paisagem. Diferente dos nossos rios que sofrem com o esgoto despejado em suas águas. Fico a me perguntar por qual motivo, pagamos pelo tratamento do esgoto, jogado em nossos rios e não recebemos pelo serviço. Nesse curto período de verão em Dublin, pela manhã a temperatura gira em torno de 5 graus e à tarde chega a 17 ou 18 graus. Satisfeitas, as pessoas vão para as ruas e até usam bermudas coloridas, saudando o sol!

Nos supermercados, as frutas ficam embaladas em sacos plásticos, apesar da menor variedade em relação àquelas encontradas no Brasil. O transporte rodoviário e ferroviário é espetacular. Linhas de trem ligam as cidades com preços acessíveis. Fico imaginando se no futuro, o Brasil terá a tão sonhada malha ferroviária, ligando de ponta a ponta as capitais em nosso país.

Numa daquelas tardes de junho, decidi conhecer Sandycove, próxima a Dublin. Queria entrar no museu James Joyce, além de ser uma bela e pequena cidade à beira mar. A tarde oferecia fortes ventos e céu nublado. Depois de visitar os principais pontos turísticos, sentei-me num banco, e fiquei a observar a praia sem areia, contida por muros de arrimo. Eu estava de cachecol e blusa de frio. Curiosa, olhava os seus moradores. Pareciam alegres, tomando banho de mar com um sabor bem distante dos trópicos.

             Enquanto observava aquelas pessoas a se banharem, numa água e num tempo para mim excessivamente frios, lembrei-me do poema de Gonçalves Dias: Canção do Exílio. Sempre achei aquele poema, próprio dos românticos, uma espécie de lirismo saudosista exagerado. Mas, naquele instante, como um véu a desnudar o meu rosto, pude revisitá-lo com um novo e estranho sentimento na alma.

            Voltei à infância e à casa de minha avó em Minas Gerais. De mãos calejadas e com uma bacia de alumínio ao colo, sentou-se ao sol, e pôs-se a cortar com a faca a couve em fios. Com que destreza ela divide aquelas folhas da largura ínfima de uma linha? Depois, o feijão, feito com muito alho. Nunca mais comi um feijão como aquele. Em Dublin, há muitos brasileiros, e não foi difícil encontrar um restaurante de comida mineira.

            Quando pousei no Brasil, era então tarde da noite. Chamei um táxi para a casa. No caminho, desejei sinceramente que o povo do meu país tivesse um governo justo e bom. Desejei que o dia amanhecesse e eu pudesse ver o sol, o céu azul e sentir aquele calor morno.

Ao acordar fui ao mercado em busca de frutas. Saboreei ao máximo cada um daqueles manjares. O quarto desejo... Planejar as férias que me sobraram: sentar-me ao sol em uma praia bem acolhedora, talvez ao sul da Bahia e percorrer quilômetros e mais quilômetros de areias brancas e quentes. 

Cristina Baracat