Dublin
Junho
de 2018. Desci no aeroporto de Dublin e vislumbrei um céu nublado, um vento
frio cortando a pele. Saudades. Minha filha e meu genro moram naquela cidade.
Conhecida
como a Esmeralda da Europa, Dublin tem
verões distribuídos em belos parques. O rio Liffey corta a capital, convive com
a cidade e se harmoniza com a sua paisagem. Diferente dos nossos rios que sofrem
com o esgoto despejado em suas águas. Fico a me perguntar por qual motivo, pagamos
pelo tratamento do esgoto, jogado em nossos rios e não recebemos pelo serviço.
Nesse curto período de verão em Dublin, pela manhã a temperatura gira em torno
de 5 graus e à tarde chega a 17 ou 18 graus. Satisfeitas, as pessoas vão para
as ruas e até usam bermudas coloridas, saudando o sol!
Nos
supermercados, as frutas ficam embaladas em sacos plásticos, apesar da menor
variedade em relação àquelas encontradas no Brasil. O transporte rodoviário e
ferroviário é espetacular. Linhas de trem ligam as cidades com preços
acessíveis. Fico imaginando se no futuro, o Brasil terá a tão sonhada malha
ferroviária, ligando de ponta a ponta as capitais em nosso país.
Numa
daquelas tardes de junho, decidi conhecer Sandycove, próxima a Dublin. Queria entrar
no museu James Joyce, além de ser uma bela e pequena cidade à beira mar. A
tarde oferecia fortes ventos e céu nublado. Depois de visitar os principais
pontos turísticos, sentei-me num banco, e fiquei a observar a praia sem areia,
contida por muros de arrimo. Eu estava de cachecol e blusa de frio. Curiosa,
olhava os seus moradores. Pareciam alegres, tomando banho de mar com um sabor
bem distante dos trópicos.
Enquanto observava
aquelas pessoas a se banharem, numa água e num tempo para mim excessivamente
frios, lembrei-me do poema de Gonçalves Dias: Canção do Exílio. Sempre achei aquele poema, próprio dos
românticos, uma espécie de lirismo saudosista exagerado. Mas, naquele instante,
como um véu a desnudar o meu rosto, pude revisitá-lo com um novo e estranho sentimento
na alma.
Voltei à infância e à casa de minha avó em Minas Gerais.
De mãos calejadas e com uma bacia de alumínio ao colo, sentou-se ao sol, e
pôs-se a cortar com a faca a couve em fios. Com que destreza ela divide aquelas
folhas da largura ínfima de uma linha? Depois, o feijão, feito com muito alho.
Nunca mais comi um feijão como aquele. Em Dublin, há muitos brasileiros, e não foi
difícil encontrar um restaurante de comida mineira.
Quando pousei no Brasil, era então tarde da noite. Chamei
um táxi para a casa. No caminho, desejei sinceramente que o povo do meu país
tivesse um governo justo e bom. Desejei que o dia amanhecesse e eu pudesse ver
o sol, o céu azul e sentir aquele calor morno.
Ao
acordar fui ao mercado em busca de frutas. Saboreei ao máximo cada um daqueles manjares.
O quarto desejo... Planejar as férias que me sobraram: sentar-me ao sol em uma
praia bem acolhedora, talvez ao sul da Bahia e percorrer quilômetros e mais
quilômetros de areias brancas e quentes.
Cristina Baracat

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