quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O negócio é o seguinte...






O  negócio é o seguinte.....

                                                        Cristina Baracat
Difícil explicar os anos 80 no Brasil. Tentarei. Foi uma geração que viveu o apogeu e o declínio do regime militar. A juventude queria respirar a todo custo. Em suma, viver o que não foi, mas poderia ser.

Naquela década, o país foi palco de passeatas estudantis pelo fim da Ditadura Militar e pelas Diretas já. Estava eu no 3º ano científico. Hoje se diz Ensino Médio! Curioso pensar em  novas nomeclaturas  que cada governo decide  para a educação  durante o mandato. Fazem questão de ignorar as mudanças reais como o salário dos professores e  a qualidade no ensino. Exemplo disso foram as recentes manifestações em 2013. Um participante segurava um cartaz onde estava escrito: Escola não é depósito:  35 alunos + 1 professor não dá!

Obs!!! Peço desculpas se iniciei pelos anos 80 e mudei para 2013. Mas é impossível uma retrospectiva sem alusões, mesmo que sejam breves.

Bem, agora retorno à década mencionada no início deste texto. Eu estudava  no Colégio Estadual Central quando um grupo de alunos passou nas salas e avisou que naquele mesmo dia haveria uma manifestação pelas Diretas já na Praça da Rodoviária, início da avenida Afonso Pena a partir das 17:00 horas. Naquela época, não havia Facebook  e os avisos eram na garganta mesmo. Por telefone não dava porque era caro! E nem mesmo o celular havia sido inventado! Depois disso, a reação foi imediata. Os estudantes começaram a bater com a palma das mãos nas carteiras vibrando toda  a escola. Era um sinal  de que o recado foi dado.

Em torno das 19:00  horas,  a manifestação  já contava com cerca de 400 mil pessoas! Os  trabalhadores e moradores dos prédios em torno jogavam papel picado  para saudar a multidão. Homens e mulheres formavam uma grande corrente espalhando-se pela avenida.

Osmar Santos, conhecido narrador de futebol na época, fez a apresentação do comício. O ator Denis Carvalho iniciou o discurso lembrando um diálogo com o filho no qual ele indagava ao pai por que ele não podia votar para  presidente?  Fafá de Belém cantou o Hino Nacional. Milton Nascimento e o antropólogo Darcy Ribeiro também estavam lá.

Os políticos, adorados por uns e criticados por outros, apesar das polêmicas ideológicas, uniram os seus propósitos e marcaram presença: Lula, Brizola, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães... 

Um festival de camisetas multicores desfilava  pelas ruas no coração dos jovens com os dizeres: Ufa! Votei!... Diretas para presidente!... Diretas Já!... Diretas já com Liberdade! ... Os tecidos  variavam: vermelho, branco,preto, amarelo, verde e azul!

Tempos depois, ainda na década de 80, lembro-me de uma ocupação dos estudantes na reitoria da PUC. Em assembleia,  o DCE  chamava  os integrantes dos DAs para se expressarem. No palco improvisado, um estudante do DCE fez a chamada: Curso de Letras! Silêncio. Novamente: Curso de Letras! Até que, depois de algum tempo, apareceu uma militante. Ela custou, mas criou coragem para falar. Porém,  surgiu uma dúvida. Como iniciar um discurso? Não tinha o hábito de falar em público! Lembrou-se de ter lido alguns manuais da UNE. Seus líderes sempre começavam assim: O negócio é o seguinte ....! O negócio é o seguinte....!?!

A estudante ficou vermelha, depois mudou para um tom pálido. A assembleia, como sempre, estava na expectativa de um discurso empolgante! Então ela pensou e finalmente iniciou: O negócio é o seguinte .... Depois de pronunciar essas palavras, sentiu que a língua destravou. Agora era continuar!

Hoje, penso não existir um paralelo entre as manifestações atuais e as da década de 80. Talvez uma continuidade. Antes,  Liberdade era a palavra chave. Hoje, o tema continua o mesmo, apenas mais pontual: Queremos metrô, abaixo a PEC 37, Escola não e depósito.... 
E a juventude? Ela continua nas ruas.





Memoria de menina






MEMÓRIA DE MENINA
Cristina Baracat
Testemunha ocular na casa de minha avó materna, eu ouvia tudo, ou quase tudo do que acontecia quando era criança. Até hoje, quando visito minhas tias, os mesmos móveis estão lá, provas vivas daquilo que presenciei. Até o sofá na copa, onde minha avó conversava com os filhos já casados, que ao visitá-la, continua no mesmo lugar.
Lembro-me também de minha avó conversando com meu tio avô. Sentados à mesa, enquanto almoçavam. Eu contava as pimentas que eles retiravam do vidro. Depois, amassavam-nas com o garfo no prato. Meus olhos ardiam, só em pensar naquelas pimentas grandes e vermelhas.
Meu tio avô sempre chegava com balas, chocolates, e eu corria com as mãos estendidas, para recebê-las. Depois pedia: canta aquela música. Então, ele começava: Havia uma barata na careca do vovô/ foi assim que ela me viu/ bateu asas e voou/ seu Joaquim, quirim-quim/ da perna tor-tá-rá-tá/ dançando só-só-ró-só/ com a Marico-tá-rá-tá!
Mas não era só essa a parte da história. Década de 70, Ditadura Militar, meu tio, que era médico, trabalhava na Medicina Legal. Minha avó ouvia os desabafos de todos os filhos. Durante a visita, ele confidenciava: Meu colega negou-se a dar um laudo sobre a morte de um estudante e foi demitido.
Aos domingos, era o dia de visita do tio mais novo com a esposa e filhos. Minha tia também trabalhava na Medicina Legal. Era o seu dia de confidência: Minha sogra, um estudante, um jovem aparentando uns 19 anos... Cheguei pra trabalhar mais cedo. Silêncio total. Fiquei magoada porque nenhum colega de trabalho me preveniu. Entrei pelo corredor e fui surpreendida por um homem de negro, que saiu não sei de onde e sacou uma metralhadora para mim. Imagina o susto! Os pais do garoto vieram do Rio. Mostraram o retrato dele. Era um rapaz lindo, olhos claros. Não deixaram os pais verem o menino. Horrível... O garoto tinha o rosto todo marcado de queimaduras de ponta de cigarro...
Passados alguns dias, numa manhã aparentemente tranquila, minha avó me chamou. Senta aqui. Eu, obediente, sentei ao seu lado. Então, ela começou: Se um dia, um velhinho, com ar de bonzinho, vier, conversar com você e oferecer balas, não aceite! E, se ele perguntar... Seu pai é da ARENA ou do MDB? Responde que o seu pai é da ARENA (partido do governo na época).
Minha imaginação de criança avistava um velhinho de negro, chapéu e bengala, sentado num banquinho, me fazendo perguntas sugeridas por minha avó.
Cresci e já adolescente, com 14 anos, numa bela tarde no centro de Belo Horizonte, por volta das seis, com o trânsito agitado na avenida Afonso Pena em frente ao Parque Municipal, eu ouvia as manifestações estudantis: Abaixo a Ditadura!
Curioso quando esses fatos retornam à minha lembrança depois de adulta. Meditei sobre esse fato ao me recordar da minha “vidinha” de criança: um mundo, de acordo com a passagem do Evangelho segundo o espiritismo, de expiações e de provas. Se por um lado, me divertia com as brincadeiras, também não deixava de viver o lado triste, melancólico, das pessoas que me rodeavam.
Meu tio avô faleceu primeiro. Minha avó chegou quase aos cem anos de idade! Hoje, todas essas vozes me acompanham, me visitam quando eu escrevo. Estão vivas, ou melhor, todos estão lá, presentes em minha memória do tempo de menina.