Be-a-bá
Autora: Cristina Baracat
Aos seis anos, no
pré-primário, a professora fazia um esforço tremendo para que eu associasse as
palavras. Eu sofria, porque era uma mistura de timidez aliada ao medo da
repreensão por não saber.
Irmã Terezinha indicava-me o quadro, mostrava-me um
caminhão desenhado com giz colorido, e, ao lado, a representação escrita. Mas o
pavor tomava conta de mim. Ela insistia, e, eu, muda, nada respondia. Por fim,
ela adiantava: “caminhão”. Eu me silenciava. Constrangida, calava-me. Não
compreendia.
O
ano passou, e, por fim, fui matriculada no primeiro ano da escola pública. A
professora dividia o quadro em colunas e pedia para que nós repetíssemos:
BA-BE-BI-BO-BU/ PA-PE-PI-PO-PU/ LA/LE/LI/LO/LU....
Mas...era isso? A ficha parecia ter caído. Como assim tão
fácil? E, eu, entusiasmada, repetia as sílabas. Depois disso, as sílabas
cresceram em minha mente, tornando-se palavras, sentenças... E quando menos
esperava, me surpreendi lendo. Queria escrever histórias. Que tal a do
cachorrinho que se chamava Bolinha de
Gude? Perdeu-se da sua dona, que, claro, assim como
eu, a dona teria que ter a minha idade, 7 anos, e, no final, o cachorrinho
teria que ser encontrado.
Essa história vinha à exaustão. Enchia uma folha de papel
e a leitora era sempre a minha mãe. Até que um dia, ela abriu o jogo: “A
história do cachorrinho é bacana, mas você pode escrever sobre outro assunto
também”. Ah! ..Os contos de fadas... Soldadinho
de chumbo, Os cisnes selvagens, Barba ruiva. Não me conformava com o final
triste do soldadinho, olhando para a bailarina com olhos apaixonados, enquanto
se queimava no fogo, nem com os irmãos da princesa, que, encantados,
transformaram-se em cisnes selvagens, e muito menos com as maldades do Barba ruiva! Depois, vieram as
aventuras: Robson Crusoé, História do
Mundo para as crianças, As viagens de Marco Pólo....
A leitura com o passar do tempo se transformara num vício
bom. Difícil era parar. Já com os meus 14 anos, me apanhava na biblioteca de
meu pai, lia tudo: Cândido ou o Otimismo,
A mão e a luva, Otelo.... Entender ou não? Eis a questão. Mas, ler já se
tornara precisão, necessidade... Algo como dormir, comer, namorar...
