segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Humanidades

HUMANIDADES
                                     Fransmarina
           Em Confins, depois de passarmos pela porta de embarque, entramos no pequeno ônibus que nos deixaria ao pé da escada da aeronave. Eu já estava sentada, quando entrou uma senhora idosa, para quem  o rapaz ao meu lado cedeu gentilmente o lugar. No entanto, ela não o agradeceu, nem se sentou, mas colocou sua grande bolsa no assento oferecido. Tal ação me indignou, e, por isso mesmo, enquanto pude, fiquei observando essa mulher. Minutos depois, quando ela subia a escada do avião, apareceu um homem decidido a ajudá-la, levando sua bolsa de viagem. Bobo, pensei eu, ela não merece este seu favor! 
Dentro do avião, ficamos lado a lado, apenas separadas pelo estreito corredor, e assim continuava meu olhar aguçado: pele branca, enrugada, traços finos, olhos fundos, boca pequena, lábios finíssimos - um rasgo de boca - nem gorda, nem magra. Quantos anos teria? Beiraria os setenta? Por diversas vezes, coçava a cabeça de ralos cabelos castanhos com raízes brancas. Sua mão, mais jovem que seu rosto, não levava nenhum anel, nem unhas grandes pintadas; e ela, por quem senti uma ponta de raiva, pareceu-me uma pessoa infeliz. Tão infeliz a ponto de não agradecer àquele que lhe cedera o assento, nem permitir um pouco de conforto ao seu cansado corpo, acomodando-o no assento macio. E durante o voo de uma hora, essa mulher, que levava vestido azul-marinho e sapatos pretos com solado grosso, mal se mexeu, a não ser num bolso, onde guardava um documento e sua passagem.
        Quando o avião aterrissou, ela pediu à moça esguia que lhe ajudasse tirar do alto compartimento sua bolsa. Da esteira rolante,  pegou com dificuldade outra bagagem, agora com rodinhas, e seguiu na direção da larga porta de saída.  E eu, ao estar de posse da minha mala, procurei com os olhos pela mulher, que já tinha se ido. E assim não pude saber se mostrou alegria no rosto ao ver um filho, neto ou amigo ali esperando por ela, ao sair da sala de desembarque. Tampouco sei se a esperavam. Tomara tivesse alguém à sua espera, e ela se alegrasse! Tomara que o gesto grosseiro, deselegante dentro do ônibus  tenha sido apenas  medo de avião, que fez paralisar nela o educado gesto de agradecimento. Tomara aquela senhora esteja pensando o quanto fora indelicada, por não ter se sentado no lugar oferecido, nem  agradecido ao  rapaz pela gentileza que lhe fizera. Tomara Deus -  Inshalá! como dizem os árabes - que em sua casa, já bem à vontade, com os pés no chão, esteja rindo, um riso amarelo -  e no íntimo se desculpando - dizendo aos seus: os que me viram fazer o que não faço, estão me julgando uma pessoa mal educada, mal com a vida. Se eu pudesse esclarecer, explicar...
        É que para os desconhecidos, somos o que parecemos ser à primeira vista, e, por vezes, devido à influência do momento, somos o contrário do que somos. Dependendo do que seja esta outra pessoa em que nos tornamos,  envergonhamo-nos. Ainda bem que esses pequenos embaraços são passageiros, pois o bom mesmo é ser sermos nós mesmos, mostrando a todos a que viemos e, inexoravelmente,  ir seguindo a nossa estrada, no  enigmático ônibus da vida.