segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Humanidades

HUMANIDADES
                                     Fransmarina
           Em Confins, depois de passarmos pela porta de embarque, entramos no pequeno ônibus que nos deixaria ao pé da escada da aeronave. Eu já estava sentada, quando entrou uma senhora idosa, para quem  o rapaz ao meu lado cedeu gentilmente o lugar. No entanto, ela não o agradeceu, nem se sentou, mas colocou sua grande bolsa no assento oferecido. Tal ação me indignou, e, por isso mesmo, enquanto pude, fiquei observando essa mulher. Minutos depois, quando ela subia a escada do avião, apareceu um homem decidido a ajudá-la, levando sua bolsa de viagem. Bobo, pensei eu, ela não merece este seu favor! 
Dentro do avião, ficamos lado a lado, apenas separadas pelo estreito corredor, e assim continuava meu olhar aguçado: pele branca, enrugada, traços finos, olhos fundos, boca pequena, lábios finíssimos - um rasgo de boca - nem gorda, nem magra. Quantos anos teria? Beiraria os setenta? Por diversas vezes, coçava a cabeça de ralos cabelos castanhos com raízes brancas. Sua mão, mais jovem que seu rosto, não levava nenhum anel, nem unhas grandes pintadas; e ela, por quem senti uma ponta de raiva, pareceu-me uma pessoa infeliz. Tão infeliz a ponto de não agradecer àquele que lhe cedera o assento, nem permitir um pouco de conforto ao seu cansado corpo, acomodando-o no assento macio. E durante o voo de uma hora, essa mulher, que levava vestido azul-marinho e sapatos pretos com solado grosso, mal se mexeu, a não ser num bolso, onde guardava um documento e sua passagem.
        Quando o avião aterrissou, ela pediu à moça esguia que lhe ajudasse tirar do alto compartimento sua bolsa. Da esteira rolante,  pegou com dificuldade outra bagagem, agora com rodinhas, e seguiu na direção da larga porta de saída.  E eu, ao estar de posse da minha mala, procurei com os olhos pela mulher, que já tinha se ido. E assim não pude saber se mostrou alegria no rosto ao ver um filho, neto ou amigo ali esperando por ela, ao sair da sala de desembarque. Tampouco sei se a esperavam. Tomara tivesse alguém à sua espera, e ela se alegrasse! Tomara que o gesto grosseiro, deselegante dentro do ônibus  tenha sido apenas  medo de avião, que fez paralisar nela o educado gesto de agradecimento. Tomara aquela senhora esteja pensando o quanto fora indelicada, por não ter se sentado no lugar oferecido, nem  agradecido ao  rapaz pela gentileza que lhe fizera. Tomara Deus -  Inshalá! como dizem os árabes - que em sua casa, já bem à vontade, com os pés no chão, esteja rindo, um riso amarelo -  e no íntimo se desculpando - dizendo aos seus: os que me viram fazer o que não faço, estão me julgando uma pessoa mal educada, mal com a vida. Se eu pudesse esclarecer, explicar...
        É que para os desconhecidos, somos o que parecemos ser à primeira vista, e, por vezes, devido à influência do momento, somos o contrário do que somos. Dependendo do que seja esta outra pessoa em que nos tornamos,  envergonhamo-nos. Ainda bem que esses pequenos embaraços são passageiros, pois o bom mesmo é ser sermos nós mesmos, mostrando a todos a que viemos e, inexoravelmente,  ir seguindo a nossa estrada, no  enigmático ônibus da vida.

domingo, 3 de novembro de 2013

Traço de união





TRAÇO DE UNIÃO
                                  Frans de Lourenço

                          Duas vezes na semana, bem cedinho, entro no ônibus que sai do Caiçara e me deixa na Savassi, para mais um dia de trabalho. Durante o longo percurso (da Noroeste à Zona Sul), vou lendo tudo o que está pichado nos muros, nos paredões dos edifícios; onde houver um escrito qualquer, lá estão meus ávidos olhos tudo lendo, sem que eu lhes peça essa bênção. Eles só não lerão se a velocidade do ônibus for maior que a da leitura, ou se o que quer que seja encobrir o escrito, no momento exato de decodificá-lo. E isso rotineiramente acontece. No entanto, não me aborreço: não li hoje, leio amanhã, o trajeto é sempre o mesmo. Esta crônica, caro leitor, eu a queria falando dessas muitas pichações que aí estão, não atravancando o meu caminho, diga-se de passagem, mas me inspirando, aguçando a minha sensibilidade.                   
              No entanto, o que nela abordo é somente uma das pichações que li e guardei com carinho, não só por ser a mais interessante de todas, mas também pelo que vislumbrei poder ser a partir da minha veia, se não poética, romântica.
             Quando estou voltando para casa, no cruzamento da Avenida do Contorno, com uma rua da qual não sei o nome, (onde, a placa?) lá está, na parede de uma casa parcialmente demolida, o que me motiva a escrever o que agora escrevo: meia noite-me. Leio esse pedaço de frase e, um tanto inquieta e curiosa, me pergunto se o hífen aí colocado foi por descuido ou vontade. Que recado mandam essas três palavras, duas delas ligadas por um traço de união, numa justaposição, para mim, mais afetiva do que agramatical? Seriam elas fragmento de um verso, no qual um poeta-pichador ou pichador-poeta, anônimo, solitário, sentindo esvair no tempo toda a esperança de ter nos braços sua amada, agarra-se ao finzinho da noite, para chorar e cair numa escura depressão? Meia noite-me... Será que você, meu poeta-pronome, ali, apenso à noite, não tem sequer uma ponta de esperança em ter de novo aquela que um dia elegeu para seu amor? Oblíquo poeta, quão triste é seu lugar, estar assim, vacilante, ligado a um substantivo e não a um verbo, aquele que na sua amorosa transitividade  tem sempre ao seu lado o companheiro da vida inteira: “ama-me. E nada mais quero... Você me completa!” São palavras que você diria à sua musa, se pudesse, todo encantado, de coração aberto, perdidamente apaixonado e feliz, porque a felicidade só nos habita, quando estamos onde está o nosso coração, e o seu está nela.
             Meu querido poeta, não se desanime, persista, procure por ela, pois, como você deve saber, a vida quer de nós é coragem. E um dia (quem sabe?) meus olhos lerão naquele mesmo lugar, a sua nova confissão: “meio dia-me”. Então o sol da sua escrita me dirá que um novo tempo surge, e com ele a sua amada, que buscando pelo que lhe falta, sussurrará aos seus ouvidos: “voltei, porque todos os dias amanheço-me-te”.  E você, sabedor de que fim prenuncia começo, por certo, há de tatuar na mesma parede, com toda a irreverência dos amantes: “zero hora-nos”.



domingo, 13 de outubro de 2013

O cata-vento

O cata-vento
                                   
                                                                          

         Num dia de sol, longe de todos, passei a mão num pedaço de papel, um graveto e uma cola de lama, sentando num barranco, fiz com uma imensa alegria o meu cata-vento. Com foi lindo vê-lo rodar em direção oposta ao vento forte que desalinhava meus cabelos! Os meus olhos brilharam encantados com o novo brinquedo. 
Estava aborrecido com meu pai, o que me deixava profundamente triste. Pelo fato de ter me espancado por conta de algo que não me lembro, saí a correr pelos arvoredos e debaixo de uma árvore onde havia uma pedra majestosa, pude ver um rio em busca da natureza que se fazia lívida.
Que coisa boa sentir toda a liberdade longe do meu pai. O cata-vento com suas pontas viradas e arredondadas feitas por mim, estava perfeito! O vento fazia com que me esquecesse a dor da agressão. 
        Fiquei muito tempo até despertar para um dia de esplendor. Não lembro o que ouve e muito menos lembro o que passou. Foi como o cata-vento me encantou:

                                                                        
                                                O Cata-vento
                                                                               
                                                Cata-vento
Cata amor
Cata fora
                       A minha dor

                                                                         
                                                Cata-vento
Cata a flor
Cata agora
O meu amor


                                                Cata-vento
Cata a fé

                                                Cata-vento
Para o amor


                                                                        Cata-vento
Livra o meu amor


                                                Para o meu pai
Que sente dor
Cata no meu coração
                        Entender o porquê
                                                De tanta dor!


Lumar




Página recebida pela médium Neide, na reunião do dia 30/03/2013, na Fraternidade Espírita Nosso Lar, em Belo Horizonte.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Setembro

Setembro
                    
                                           Aninha Viola

Mastigo saliva doce,
 experimento dor. 

Aqueço o suor do vento,
cresço fruta orvalhada, 
amadureço flor!  


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Canção do exilado

                                                             CANÇÃO DO EXILADO
                                                           Frans de Lourenço

        Cansada do trabalho (mesmo aposentada, trabalho ainda), mas feliz por não dever nada a ninguém, nem mesmo ao governo, entro no ônibus para ir embora para casa. Lá dentro, além de umas poucas notícias e convites à gentileza urbana, o jornal da Prefeitura Municipal estampa o poema mais famoso de Gonçalves Dias. Começo a lê-lo. De repente, uma voz mais alta me tira da leitura:
       -Você não pode entrar por aí, moço, tem que passar pela porta da frente e rodar a roleta!
       Ao que retruca o jovem rapaz: 
      - Você não sabe quem eu sou, trocadora,de onde eu venho...
      O motorista, mais preocupado com o semáforo, agora verde, põe o ônibus para rodar, e não ouve o que diz aquele estranho passageiro, com sua voz firme:
    - Eu quero dizer a todos que estão me escutando, que fui humilhado pelos homens que me tiraram de onde eu estava. Este é o alvará de soltura que consegui, ainda a pouco, na penitenciária. Quem duvidar deste papel aqui pode pegar e ler. Articulei, e os policiais me soltaram,agora, no fim da tarde. Pedi a eles um adjutório, uma ajuda qualquer para pegar o ônibus pra ir embora para a minha terra, mas não... não me deram...não me deram nada.       Mas como podem soltar uma pessoa sem dinheiro e pedir para ela circular, sumir, ir rodando? Não sou daqui, não tenho ninguém aqui, e eu preciso voltar para a minha terra. Vocês já ouviram falar no Primeiro Comando da Capital, não é?  Não pertenço ao PCC, mas sim a uma organização parecida, que é fiel, justa e muito humana. Se eu der um tapa na cara de alguém, eles vão querer saber por que eu fiz isso. Quem faz parte dela, da minha organização, tem que andar na linha! Sou traficante e ladrão, ladrão de gente rica, de gente fina; de pobre, não roubo não! Também sei respeitar mulher, que a polícia joga na nossa cela e fica ali, presa, junto da gente. Tenho mãe, irmãs... No momento o que quero é voltar pra minha terra, o mais rápido possível, mas não tenho dinheiro. Por isso estou me humilhando, e muito, diante de vocês, pedindo um trocado, uma colaboração. Quem puder me ajudar que me ajude, quem não puder não tem importância. Que cada um escute sua consciência, seu coração!
      Quem poderia deixar de ajudar a esse homem novo, forte, recém-saído de uma penitenciária de segurança máxima? Quem ousaria não se condoer dele, diante de sua fala tão apelativa, tão incisiva?Todos que estávamos no ônibus tiramos do nosso dinheiro e fizemos fila para entregá-lo ao desditoso passageiro, que se dizia carente e humilhado. Não teve ali dentro quem não dividisse com ele o pouco que levava nos bolsos. 
     Quando se certificou da grandeza dos nossos sentimentos, o jovem rapaz, de rosto inquietante, virou-se para a trocadora e disse que não pagaria a passagem porque não havia rodado a roleta. E com um “muito obrigado” e um “fiquem com Deus”desceu do ônibus, deixando lá dentro a sua e a nossa grande humilhação, para a alegria de todos. (O que é a humilhação num momento desse?)
      O  coletivo põe-se a rodar novamente, e em vão eu tento continuar a leitura do poema do Gonçalves, através do qual, no exílio, o poeta exaltou brilhantemente a nossa terra. Isso foi no tempo em que aquele “lá”do quarto verso,ainda não era isto aqui.




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Espíritos hipnotizados

Espíritos hipnotizados
                                                                   Cristina Baracat
                                    
                                             
                         O coração tem razões
                                          que a própria razão desconhece...

            O livro Libertação, psicografado por Chico Xavier, em seu capítulo 15, entre vários temas, trata de um problema recorrente nos dias atuais: espíritos hipnotizados.
            No contexto deste livro, hipnotizar significa reter a atenção de alguém por uma espécie de atração irresistível. Assim, toda a atenção e a esperança do hipnotizado concentram-se numa ideia fixa.
            De modo geral, o hipnotismo pode ser considerado uma espécie de alienação psicológica em que o indivíduo atinge um estado de despersonalização no qual o sentimento e a consciência da realidade são diminuídos fortemente.
            Em princípio, André Luiz indaga ao espírito orientador, Gúbio, sobre o estado hipnótico de Gaspar, um espírito obsessor orientado para prejudicar uma jovem senhora encarnada. Ele é descrito de forma triste: o olhar quase vítreo, dava a ideia de paralisia da alma, de petrificação do pensamento. Vejam bem, ele era ao mesmo tempo hipnotizador e hipnotizado.
Gúbio esclarece que outros espíritos, ainda mais perversos, absorvem certos centros perispíriticos de Gaspar. Então, ele se detém numa obsessão: hipnotizar um espírito encarnado, no caso, Margarida. Como existem outros espíritos hipnotizando Gaspar, este perde a capacidade de ver, ouvir e sentir com elevação.
            Infelizmente, a cura de Gaspar será demorada, com passes contrários à ação paralisante, mas no momento adequado, conforme esclarece Gúbio.
            Lendo este capítulo, penso em quantas pessoas encarnadas se veem perdidas em estado de alienação. Elas povoam as ruas, os hospitais psiquiátricos, locais de trabalho e lares.
            Pergunto-me quantas vezes nos sentimos dominados por ideias fixas e destrutivas? Na verdade, “petrificamos” nossa sensibilidade ao ignorar sugestões acolhedoras e carinhosas ao nosso redor. Custamos a enxergar o que está à nossa frente e muitas das vezes complicamos o que deveria ser simples.

Acredito que este estado doentio, tão marcante na leitura deste capítulo, é mais comum do que parece.            No entanto, o Mestre Jesus nos deu a chave: entre a razão e o coração, fique com o sentimento.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

No ônibus da vida - 3

                                                  NO ÔNIBUS DA VIDA - 3

                                                              Frans  Lourenço
     Ando lendo a coleção de uns pequenos, mas grandes livros, pelos temas que abordam.  Um outro olhar, do padre Libânio, contém suas homilias, dirigidas aos fiéis que vão assistir às suas missas. 
       Cheguei a esses livros por intermédio de um colega de trabalho, que comentou comigo o que acabara de ler em um deles e achara interessante. E conversa vai, conversa vem, eu disse a ele que a minha religião é a minha ética. Não faço a outrem aquilo que não quero que façam comigo. Nem bem tinha falado  isso, vou comprar os tais livros, e lendo o índice de um deles, lá está: “Ser cristão é mais que ser ético.” Era como se a fala do padre estivesse no ar, esperando para dar a mim  o seu aviso, do qual agora me sirvo para  escrever esta crônica.Ser cristão, diz ele, é ser mais que ético, porque é necessário algo mais, ou seja: é ver o fio salvador em quem está precisando de ajuda, e mostrar a ele que nem tudo está perdido. E oferecer a mão para ajudar!
      No início da carreira, eu dava aula na favela do Sumaré, e tendo a escola alunos bem problemáticos no ensino fundamental, a diretora os encaminhava para mim, já que alguns colegas não sabiam como lidar com eles e não os queriam em suas salas. E inadvertidamente até lhes dirigiam palavras inadequadas, que os deixavam mais fragilizados e, consequentemente, mais marginalizados ainda. Aceitando o que me pedia a diretora, o que primeiro me norteava era a ética, a qual eu punha em prática, para trabalhar com tais alunos. E da rebeldia que eles me mostravam, eu tirava proveito para analisar e saber até onde me aproximar, até aonde ir  com cada um deles.  Praticava então a filosofia cristã, uma vez que tentava reciclá-los, mostrando-lhes a direção que deviam seguir, para não acabarem no lixão da vida. Não me neguei a eles, nem me aproveitei de suas fragilidades. Tentei ajudar como pude aqueles pequenos seres em formação, quando era o tempo de nossos caminhos se cruzarem, naquela escola estadual. Mas esse tempo passou, e eu nunca soube se consegui fazê-los trilhar o melhor caminho e, em caso positivo, se ainda o seguem, agora que são adultos, homens e mulheres, dos quais não tenho sequer  notícias. Só espero que não tenham encontrado, nas suas andanças por este mundo afora, os tristes e perigosos cegos de entendimento, aos quais faltou quem lhes ensinasse os princípios ideais da conduta humana, que tão bem orientam aqueles que são transparentes e confiáveis. 
     “Ser cristão é mais que ser ético”, diz o padre na sua prática.O que sei é que sendo ético dá para abraçar qualquer religião, seja ela budista, cristã, islâmica, judaica, ou qualquer outra que pregue o amor ao próximo. No entanto, se deixamos de cumprir os princípios morais, não podemos professar nenhuma delas, já que estaremos mentindo para nós mesmos, e seremos protagonistas de uma grande farsa engendrada pela nossa mente. A ética nos faz íntegros e nos ajuda a viver a nossa humanidade da melhor maneira possível. E também nos enobrece.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

No princípio era o verbo





No princípio era o verbo
                                                         Cristina  Baracat
Palavras.
Amá-las
sem subestimá-las.

Palavras. 
Interpretá-las
e dar sentido 
ao ouvido.

Palavras.
Decifrá-las
e  subtrair  
o olvido.

Palavras.
Aproximá-las
e  significar 
o mundo.

Palavras.
Encontrá-las
e  partir 
o labirinto 
do  abismo.

Palavras.
Tocá-las
e  aproximar-se
de Deus. 



sábado, 10 de agosto de 2013

Mundo pequeno



MUNDO PEQUENO
Cristina Baracat

O livro Libertação, psicografado por Chico Xavier e escrito pelo espírito André Luiz, nos traz um tema intrincado sobre obsessão. Existe um verdadeiro exemplo de paciência por parte de alguns protagonistas no intuito de desfazer uma perseguição planejada.
Do mesmo modo que o amor é um oceano de solidariedade, o ódio é uma corrente que se prende aos propósitos da vingança.
Peço licença, caro leitor, para entrar no drama das personagens. A mãe de Gregório recorre ao benfeitor Gúbio para que ele a ajude na recuperação do filho. Por sua vez, o benfeitor quer auxiliar a filha reencarnada, Margarida. Acontece que esta, a filha de Gúbio, é alvo da perseguição de Gregório em atitude de desafeto ocorrida em reencarnação passada.
Para ajudar Margarida, Gúbio terá que pedir neutralidade ao chefe daquela organização de obsessores, Gregório. Saldanha, subordinado às ordens do “maior” dos perseguidores, se dispõe a coordenar a vingança contra Margarida porque odiava o pai encarnado da moça. O genitor, na profissão de Juiz, sentenciou injustamente o filho de Saldanha. Veja você, leitor, como as pessoas encarnadas e desencanadas se entrelaçam mais do que as aparências.
Mas, voltemos à narrativa: Gúbio para desmantelar essa rede de conflitos, nos dá uma aula de sabedoria. Para obter a neutralidade de Gregório e interceder junto à Margarida, propõe um possível retorno do obsessor  à carne com a ajuda da filha. Com a anuência do “chefe”, dá o segundo passo que consiste em aproximar-se de Saldanha, que atingia Margarida diretamente. Antes, Gúbio terá que auxiliá-lo na superação de mágoas e ressentimentos. E Saldanha, que adoecia Margarida com o seu ódio, irá salvar sua vítima do adoecimento, bastando para isso mudança de atitude.
No estudo deste caso, em que o leitor encontrará detalhes no livro, percebemos que a dissolução dos conflitos íntimos é algo a ser tratado com delicadeza e paciência.

 Por estas e por outras, não é que o mundo é pequeno?

domingo, 16 de junho de 2013

Olha aí, o Saci

Olha aí, o Saci
 
 

                                                          Cristina Baracat

 

Tá aqui, tá ali,

redemoinho de vento,

é hora do Saci,

Sem pedigree,

olha ele aí!



Todo mundo quer

ser um Saci,

tá ali e tá aqui,

bem aí.




Senhor da magia,

rei da ventania,

É ele, neguinho!

O Saci pequeninho.



Se é perneta?

nem sei,

Se é danado?

adivinhei.




Sei ao certo,

que é esperto.

Saci pequeninho,

todo pretinho.




Cor da noite,

cor da lua,

na penumbra,

ele  deslumbra.




 

 

 

 


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Festa de Cinderela

                                                       Festa de  Cinderela
                                                                  Cristina Baracat

Deixa  a lua quieta 
na janela
Seu  moço,
e diz 
do seu amor pra ela.


Donzela,
Deixa o fogo
na panela
e corre, 
pra  janela

Hoje é dia de festa,
é dia de  Cinderela,
Deixa  ela
 na janela.

sábado, 1 de junho de 2013

Morada do Escritor: Segunda morte

Morada do Escritor: Segunda morte: SEGUNDA MORTE Cristina Baracat E é morrendo, que nascemos  para a vida eterna. No capítulo 6, do livro Libertação , psicografado por...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Segunda morte

SEGUNDA MORTE
Cristina Baracat
E é morrendo, que nascemos
 para a vida eterna.
No capítulo 6, do livro Libertação, psicografado por Chico Xavier, encontramos diálogo interessante.
         Para responder aos questionamentos de André Luiz, o Instrutor, Gúbio, levanta a questão: ... Já ouviste falar, (...), numa “segunda morte”... (p.105)
         Afinal, o que seria isso? Morremos uma segunda vez?
O assunto vem à tona quando André Luiz e o Instrutor estão numa região trevosa com o objetivo de resgatar Gregório, um espírito endividado. Ao observar formas ovóides, as perguntas do aprendiz levam Gúbio a explicá-lo como é a segunda morte. Como um professor atencioso para alunos interessados, ele a divide em partes:
a)     Na primeira, refere-se a espíritos mais evoluídos, que perdem o veículo perispíritico, conquistando planos mais altos;
b)    Na segunda, ocorre com espíritos que necessitam se reencarnar na Terra. Nesse caso, eles se submetem a operações redutivas e desintegradoras dos elementos perispíriticos[1] para renascerem.
O Instrutor expõe ainda uma terceira ocorrência. Diz respeito a personalidades ignorantes e más. São transviados e criminosos que perdem a forma perispiritual e imantam-se aos que se lhes associaram nos crimes.
O aprendiz, em diálogo com Gúbio, as descreve como formas indecisas, obscuras. Assemelham-se a pequenas esferas ovóides, um pouco maior que o crânio humano.
Essas formas ovóides habitam as regiões trevosas, aderidas às entidades afins, que de certa forma, são parceiros nos erros praticados.
Portanto, segundo André Luiz, existem três tipos de morte: a primeira  refere-se aos espíritos mais elevados em direção a planos evoluídos; a segunda diz respeito aos espíritos que reencarnam na Terra; e a terceira ocorre com  espíritos presos na consciência obscura do mal.    
Apesar de não ser fácil, nossa aspiração deve consistir no desenvolvimento do nosso corpo em matéria sublimada e divina, morrendo para habitar dimensões superiores da Vida. Como? O Instrutor aconselha-nos enriquecer a mente de conhecimentos novos e purificá-la nas correntes iluminativas do bem.



[1] Perispírito: Mais "grosseiro" que o espírito e mais "sutil" que o corpo. Constituído a partir   do "Fluido Cósmico Universal", que Kardec defendia ser a matéria primordial de que se compõe o universo.

Pão de Açúcar e bondinho








Pão de Açúcar e bondinho
Cristina Baracat

Década de setenta, o Brasil vivia a euforia de ser tricampeão na Copa do Mundo. O regime militar ditava as regras. A  Austrália  e a  Nova Zelândia retiravam-se do  Vietnã. Os Estados Unidos reduziam, assim, o número de soldados na guerra. Mas isso era insignificante  para os meus seis  anos de idade.
O importante  era  a formatura  no pré-primário do colégio São Pascoal, no bairro caiçara em Belo Horizonte.  A turma comemorou o rito de passagem com um chapéu de soldado feito de papel com as cores do Brasil. Cantamos na  apresentação   Eu te amo meu Brasil da dupla Dom e Ravel, sucesso nas paradas  do rádio.
Outro acontecimento: Meus pais, tios e vó juntaram dinheiro durante o ano afim  de  conhecerem o Rio de Janeiro. Eu me perguntava: Como seria o mar para alguém  nascida e criada entre as montanhas? Uma piscina é fácil, mas... e o oceano?
A família alugou um pequeno apartamento em Copacabana. Ninguém reclamou da falta de espaço. Afinal, para que existiam colchões extras e sofás? Os passeios no Rio é que fariam a diferença.
No entanto, uma cena ficou retida em minha memória. Eu, de mãos dadas com o meu pai, atravessando de bondinho em direção ao Pão de Açúcar. Maravilha! Acima, o infinito do ar, abaixo, o azul do mar! Três americanos conversavam entre si, dentro daquele pequeno espaço. Eu, já cantava algumas musiquinhas em inglês na escola e o meu ouvido identificava, apesar de criança, o idioma dos estrangeiros.
Não perdi a oportunidade de chamar atenção de meu pai. Adorava quando ele comentava com os adultos o que eu fazia ou dizia. Ele era o meu herói! Então, perguntei: “Papai, porque essas pessoas estão falando enrolado?” Conforme eu esperava, ele achou graça da minha pergunta,  e explicou-me pacientemente o que eu já sabia: “ São americanos e estão conversando em inglês.”
Como me diverti nesse passeio! E os adultos? Acho que são crianças crescidas. Duvido que alguém não tenha cometido loucuras em qualquer idade ou tenha feito as maiores idiotices para ser correspondido por aqueles a quem amamos!
                                                                 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Segunda morte

Segunda morte
                                   
                     Cristina Baracat

E  é morrendo, que nós nascemos
 pra vida eterna.

            No capítulo 6, do livro Libertação, psicografado por Chico Xavier, encontramos um diálogo curioso.  
         Para responder aos questionamentos de André Luiz, o Instrutor levanta a questão:  ... Já ouviste falar, (...), numa “segunda  morte”...(p.105)
         Afinal, o que seria isso? Morremos  uma segunda vez?    
O assunto vem à tona quando André Luiz e o Instrutor estão numa região trevosa com o objetivo de resgatar Gregório, um espírito endividado. Ao observar formas ovóides, as perguntas do aprendiz levam o Instrutor a explicá-lo como é a segunda morte.  A  exemplo de um professor atencioso, ele a divide em partes:
a)     Na primeira, ocorre com espíritos que necessitam se reencarnar na carne terrestre. Nesse caso, eles se submetem a operações redutivas e desintegradoras  dos elementos perispíriticos[1]  para renascerem;
b)    Na segunda, refere-se a espíritos mais evoluídos, que perdem o veículo perispíritico, conquistando planos mais altos.
O Instrutor expõe ainda uma terceira ocorrência. Diz respeito a personalidades ignorantes e más. São transviados e criminosos que perdem a forma perispiritual. Grande número,  imantam-se aos que se lhes associaram nos crimes.
O aprendiz, em diálogo com o Instrutor, as descreve como formas indecisas, obscuras. Assemelham-se a pequenas esferas ovóides, um pouco maior que o crânio humano.  
Essas formas ovóides  habitam as regiões trevosas, imantadas às entidades  afins, que de certa forma, são parceiros nos erros praticados.
Apesar de não ser fácil, nossa aspiração deve consistir no desenvolvimento do nosso corpo em matéria sublimada e divina. Como? O Instrutor aconselha-nos: enriquecendo a mente de conhecimentos novos e purificando-a nas correntes iluminativas do bem



[1] Perispírito: Mais "grosseiro" que o espírito e mais "sutil" que o corpo. Constituído a partir   do "Fluido Cósmico Universal", que Kardec defendia ser a matéria primordial de que se compõe o universo.

domingo, 26 de maio de 2013

Unlimited: Clipe do Dia

Unlimited: Clipe do Dia: Evaldson Bispo dos Santos, vulgo Galinha Tonta, é um mineirinho desdentado que aos sete anos de idade começou a ter uns sonhos muito estra...

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Hora marcada


Hora marcada  
                                                                    Cristina Baracat 
                                     
Acontece, porém, que o inesperado surge de repente, carreando bens ou males que a criatura,
sempre  acalentada pela esperança, não conta receber de improviso. [1]

Chuva fina cobria a paisagem de arranha-céus e casas penduradas entre morros e montanhas em Belo Horizonte.
      Sentiu um calafrio percorrer o corpo. A cabeça lhe doía, pesava sobre os ossos. Um leve suor escorria de suas mãos finas e frias.
      Olhou ao redor. A casa estava deserta. Sabia que tinha um compromisso marcado para 3 horas da tarde. O marido e os filhos saíram na frente.  Por que não a esperaram? Algo lhe dizia que estava atrasada e não poderia faltar. Quando o telefone tocou, de manhã bem cedo, ainda atordoada, levantou-se para atender. Anotou no papel algumas orientações: velório 7, enterro às 15: 00 horas.
       Entrou no quarto, calçou um sapato simples, vestiu um casaco marrom. Passou um leve batom rosa nos lábios. Pegou as chaves do carro e deu a partida. Chegaria a tempo? Olhou o relógio. Faltavam dez minutos para as 3: 00 horas.
        Ligou o rádio do carro. De onde estava chegaria rápido. Por que não se lembrava de quem seria o velório? Estava confusa quando atendeu a ligação telefônica. Devia ser um colega de trabalho do marido que faleceu. Ela precisava estar lá. Por que o marido levara os dois filhos adolescentes? Seria alguém da família que havia morrido? Tentou o celular. Desligado.
      Finalmente, conseguiu estacionar dentro do cemitério. Consultou o relógio: 15 horas e 5 minutos. Ainda chegaria a tempo. Olhou o papel anotado e localizou o número do velório. Percebeu que o cortejo saía com uma pequena multidão. Aliviada, respirou fundo. Clima estranho aquele: sol com chuva, casamento de viúva!
     À medida que se aproximava, as pessoas do cortejo fúnebre foram se fazendo familiares. À frente, o marido e os dois filhos. Atrás, a mãe, as cunhadas e as sogras. Alguns primos e colegas de trabalho também estavam lá.
     Aproximou-se, enlaçou-se nos braços do marido. No entanto, ele estava tão compenetrado que nem percebeu a sua chegada.  O cortejo estacou no local onde seria o enterro. O caixão abriu-se. Rosas brancas foram jogadas sobre o corpo que repousava sobre a paz silenciosa dos mortos.
Fixou o olhar sobre o caixão. Sentiu uma dor aguda. Segurou-se nos braços do esposo para não cair. Os filhos de olhos vermelhos jogavam rosas brancas. Sentiu-se sem lugar e espaço. Articulou palavras soltas, desconexas. Ninguém a ouvia! Dirigiu-se aos familiares e eles não respondiam aos seus apelos. Por que todos a ignoravam?
Um leve abatimento tomou conta do seu semblante. De novo, aquela sensação de sem tempo e sem espaço invadiu o seu cérebro. Apalpou-se, sentindo o seu corpo.
De suas mãos, um frio suor escorria. O que seria a morte? Sentiu um líquido escorrendo de sua testa. E aquelas mãos cruzadas lá dentro, sobre o peito? De quem eram?
O mesmo casaco marrom, o batom rosa de minutos atrás. Ela estava ali, bem à sua frente, dentro do caixão. Quem era ela afinal? Como poderia ocupar dois lugares ao mesmo tempo? Estaria ao lado do marido e dos filhos? Ninguém lhe explicou como seria a passagem.
Sentiu outro calafrio. Ao longe, avistou alguém. Era um homem alto, de cabelos grisalhos e blusa branca. Ele era o único que conseguia vê-la. Sentiu certo alívio, afinal, ela existia. 
Um senhor de blusa branca acenou para ela e convidou-a para ir com ele. Mas... para onde? Uma insegurança atravessou-lhe os sentidos. Olhou para trás, percebeu que naquele funeral, ela era ignorada. Ali não haveria lugar e nem espaço.
Olhou com imenso carinho para cada um dos seus familiares e amigos. Depois, virou-se e seguiu com o homem de blusa branca. Ele buscou as suas mãos, segurando-as com firmeza. Seu coração ainda sentia a mesma indecisão de antes.
Com suas dores e velhas lembranças, recomeçou com passos trôpegos. Aos poucos, firmou as pernas. Era preciso  seguir adiante.     



[1] Psicografia de  Francisco C. Xavier, em Uberaba, no Grupo Espírita  da Prece, na noite de 21 de junho de 1980, dirigida à esposa sra. Irene Netto, o médico José  Murillo  Netto fala sobre a sua desencarnação e do que já aprendeu em quase três anos no mundo espiritual.