segunda-feira, 23 de abril de 2018

Galopé




Galopé

                                                                                                     Cristina Baracat[i][1]

                                                                                   Este conto é dedicado à memória de Orestes Sachi, membro  fundador do Sindicato dos Químicos  em Iguatama,  falecido em 13 dezembro de 2012


Quem gosta de uma política, junta no bar do Batoré. Por lá já vi muito político perder e ganhar a eleição. Tem gente que aparece até pra... fazer negócio: Só sei do milagre. Do Santo? Não vi não!

Não carece da escrita. Ocê  bebe a cerveja e vai guardando no canto da mesa. O Batoré recolhe ela não! Nos finalmente, conta o tanto que deu de garrafa e ocê paga tudo! É prosa certa! A cachaça é da boa até na risca do copo!

O Batoré serve de um tudo com galopé. O amigo não sabe? Então lá vai: cozinha um galo junto com o pé de porco. No tempero, vai cebola, pimenta....

Outro dia, um professor apareceu no bar do Batoré e explicou: o palavreado galopé é justa... justaporção. Ocê junta  galo mais  ... do porco  e vira galopé.

            Fartura no galopé e bem me aparece o Tião, com aquele cabelo de fogo feito espiga de milho, um agigantado de branquidão feito cera! O home arrebentou no discurso:  
            - Minha gente, o galopé e a bebida eu pago!!!! Dessa vez eu entro pra política!

            Cresceu palma de todo o lado pro Tião! Não demorou e apareceu o Toizim. Mais preto que carvão e com o riso no dente feito clarão de lua. Numa magreza, feito vara de bambu. Tinha posto escuta no amigo. Coçou o cabelo crespo e deu a resposta:

            - Ô Seu Tião, não arrepara não. Eu mais minha família vai apoiar o senhor não, porque eu lá vou na candidatura a vereança também!

             Tião espetou a unha com a ponta do canivete, e veio cortando, feito navalha:

            -Larga de bestage, home, porque preto não vota em preto, e branco não vota em preto!

            Toizim pôs freio no rompante, ficou mais mudo que passarinho tristinho na gaiola. Riu de beiço apertado. Deu de ombro no galope. No pensamento dele não carecia de virar rixa por causa de política.

            No finalmente da eleição, a turma correu pra prosear e fazer a festança no bar do Batoré. Galopé na serventia e lá vai cachaça da boa mais cerveja! Toizim alevantou com a gengiva  vermelha na alvura do dente e deu a palavra:

            -  Tá todo mundo na serventia! É pra comemorar a minha vereança!

            A turma aplaudiu foi muito. Até quem não votou nele!

Lá no fundo do bar, Toizim espiou matreiro a oposição. Foi chegando macio e deu um tapa de cumprimento nas costas do Tião. Gracejou que nem pinto no lixo de tão alegre:

            - Uai, Tião, cê num disse que preto não vota em preto? Que coisa, né? Até os branco votaram em mim!

            Tião, feito  cor do leite, ficou vermelho que nem minha plantação de pimentão da fazenda, querendo dá o troco:

            - Não te falei que nego é tudo safado? Preto só serve pra fazer pneu!

            Toizim abriu a janela do sorriso e alavancou com a melhor marca do moderno:

            -Vixi Maria, Seu Tião, que preto quando faz pneu é Radial!






[1] O conto narrado, ocorrido na cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros agradecimentos a Monoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.







quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lá vem o Tinhoso




Lá vem o Tinhoso
                                     Cristina Baracat[1]

                                                                             Este conto é dedicado à memória de Orestes Sachi, membro  fundador do Sindicato dos Químicos em Iguatama,  falecido em 13 dezembro de 2012

            Eliotério? Sei bem. Trabalhou é tempo naquela fábrica que fazia de um tudo com o leite. No entretanto, o moderno chega alavancando tudo! Mais a chefia que põe qualquer um no cabresto: é uniforme pra cá, bota no pé, capacete, tal e qual ...
            Eliotério não era homem de se acertar com essas novidades. Apreciava o trabalho solto, livre. Sem nada pra apertar a costela. Um dia pediu conta e lá não pisou mais, nem pra buscar a botina!
Procurou o amigo Januário que tinha uns acres de terra. Homem de coração bom e firme. De sorriso estampado, respondeu: “Eliotério, carece de dividir colheita não, home! Te empresto um naco de terra. Depois da colheita, ocê compra um pedaço pro cê.”
            Eliotério era felicidade pura, que nem água da fonte! Se alevantava antes do clareado do dia. E toca o trabalho na plantação! Nem atinou pro rodopeio que a vida costuma dá na gente. Semana veio a mando de Deus com chuva e não parou mais. Água abaixo e moça donzela quando quer casar ninguém segura! E foi-se embora a plantação de cará. Tudo perdido!
            Correu a buscar o vigário. O padre apurou no conselho: “Homem de Deus! Que não! Querer afrontar o Divino com o mal palavreado? Eliotério, meu filho, reze o rosário inteiro com a Ave-Maria e o Pai-Nosso!”
Eliotério, cativo, obedeceu. Rezou, fez promessa. Foi no terreiro de mãe Benedita, tomou um banho de descarrego com sal grosso. Tentou de um tudo e nos finalmente foi buscar conselho no amigo Januário. O amigo, só no silêncio, puxou o fio da barba, matutou, olho no olho  assuntou: “Por que ocê não faz um trato mais o Tinhoso?”
            Eliotério foi pego no pulo: “Einh????”  Januário repetiu na calma: “Por que ocê não faz um trato mais o Tinhoso?” Eliotério era homem pegado na religião. Firme em Jesus e na Virgem Maria. No entretanto, tudo nesse mundo tem uma banda e outra. Um rio?  Margem de lá e de cá!  Mão e pé? Dois! E por aí lá vai! Que mal tem em tocar um acerto com o Tal?
            O palavreado de Januário repicava feito sino de matriz. Depois de muito matutar, Eliotério, na Sexta-feira 13, foi caçar uma encruzilhada. Apressou 1 hora no trato com o Tal. Chegou onze da noite. Queria tudo nos trinques!
Levou no embornal um Ebó com pinga da boa, frango com quiabo, farofa e uma fartura de vela preta e branca! Tudo pra causar boa vista pro danado do Canhoto! Era esperar a meia-noite, e o Tal chegava no prego, estalando a espora!
            Meia-noite passada. Silêncio só. Eliotério esticou o olho pra pinga e estalou a língua: “Um gole e pronto...” Abriu a garrafa. E a golada veio e repique e mais outra... Com satisfação no entretido, bebeu metade.
            Aí é que ele firmou na escuta. Lá vem um sino repicando no meio do mato! Aprumou pra mais o ouvido. Apareceu o Um num rompante e cresceu no vulto! Esperto no disfarce de um boi preto dos grandes com um sino amarrado no pescoço!
            Eliotério alargou o enrolado da língua por conta da água que passarinho não bebe: “Noite boa, Seu Tinhoso!” Deu até cambalhota pra fazer boniteza pro Tal. Eliotério explicou pro Canhoto a sua complicação. Ofereceu o resto da pinga com a farofa. Arrodeou e depois apertou feito espingarda na mira: “Negócio bom é Vossa Mercê Tinhoso arrecadar a minha alma. Eu, aqui, fico e cuido por demais da riqueza de Vossa Realeza.” O boi deu de responder Eliotério: “MUUUUU!” No entretido da hora, o boi cansou e foi embora.
            Eliotério encabulou. Voltou firme pra tocaia. A fome apertando...Que mal tem um belisco? Comeu um bocado da farofa e do frango. Tomou mais da cachaça. Aprumou a orelha e lá veio um barulho pisoteando o mato. Arregalou o olho e viu! Alevantou cambaleando e disparou: “Lá vem a??? Num é que a Danada é... Tinhosa-Mulher?!” Disfarçada que era de uma cobra da grande!
Eliotério derramou o rosário no vem-e-traz. Não deu sorte na plantação de cará.... Queria um adjutório pra tocar um seu negócio... Fez mesura e ofertou o que sobrou do frango com quiabo e da farofa. A garrafa lá ia esvaziando. Cruz credo! A Tinhosa nem mexia, parada feito um toco de pau! Ah! No sem-querer é que ele não ficava! Aí Eliotério esticou o trato: “Ô dona Cobra, se Vossa Mercê tem querência, ponho no negócio a alma do meu amigo Januário!” A Danada deu meia-volta e do mesmo jeito que despontou, sumiu mato adentro.
            Eliotério matutou por demais, deu suspiro e soltou a voz num rompante: “Tem querência não! Essa gente, que tem parte com o Tal, tem é mania de rico pra comilança!”. Olhou a sobra da farofa, do frango com quiabo e da cachaça: comeu, bebeu, dormiu e manhãzinha alevantou no pulo que o sol corria faz tempo lá na altura dessas Minas Gerais!



[1] O conto narrado, ocorrido na cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros agradecimentos a Manoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.