sexta-feira, 14 de junho de 2019

O mundo antes e depois do Cristo





O mundo antes e depois do Cristo
     
                                                                           Cristina Baracat e Pai Tomé[1]

A passagem de Lázaro no Novo Testamento (João, cap.11, v. 3- 43) traz momentos marcantes de reflexão.
A vida encarnada de Jesus na terra não foi nada fácil, como todos nós sabemos. Mas há uma passagem que deve ser relembrada, e diz respeito à tentativa de apedrejamento de Jesus: 
Disseram-lhe os discípulos: Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e tornas para lá?
Mesmo correndo o risco, com os discípulos tentando dissuadi-lo da empreitada, até mesmo com o intuito de proteger o Mestre, Jesus decide retornar para a Judeia e depois deslocar-se para a aldeia chamada Betânia. Lá, chegaria com a finalidade de ressuscitar Lázaro e cumprir a sua missão de acordo com o Pai:
Mandaram-lhe, pois, suas irmãs dizer: Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas.
E Jesus, ouvindo isto, disse: esta enfermidade não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o filho de Deus seja glorificado por ela.
Importa refletir que Jesus não havia sido avisado da morte de Lázaro, mas de sua enfermidade. Porém, o maior médium que já pousou sobre a Terra sabia que ele em determinada hora havia morrido, mesmo com os seus discípulos alegando dúvidas:
(...) e depois disse- lhes: Lázaro, o nosso amigo dorme, mas vou despertá-lo do sono.
Disseram, pois, os seus discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo.
Mas Jesus dizia isto da sua morte, eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono.
Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto;
Não havendo outra saída, com receio de serem apedrejados, os discípulos decidem acompanhá-lo:
Disse, pois Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: vamos nós também, para morrermos com ele.
Avisado por Jesus que nada aconteceria no retorno para a Judeia, Tomé ainda duvida, mesmo com o Mestre afirmando:
Jesus respondeu: Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo;
 Sejamos, porém, complacentes conosco. Tomé é o discípulo que representa a luta pela afirmação da fé, prova a ser travada dentro de cada um de nós. Na voz popular, quer dizer: ver para crer.
            De toda essa lição, vamos nos ater ao mais importante: O mundo antes e depois de Jesus. Sabemos que cada um tem o seu tempo e a sua hora marcada para aproximar-se do Mestre.
            No entanto, quando acontece, é irreversível, assim como levantar-se do túmulo entre os mortos. Significa para cada um de nós o renascimento.
Talvez seja esse o motivo desta passagem ser indelével em nossa memória coletiva:
Tiraram, pois, a pedra  de onde o defunto jazia: E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças  te dou, por me haveres ouvido. (...) Lázaro, sai para fora.
Com o passar das reencarnações, esse acontecimento permanece em nossos corações, soando em nossos ouvidos à espera de um encontro marcado com o Mestre.


[1] Pai Tomé, preto velho, meu guia espiritual.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Doença e cura


DOENÇA E CURA
Maria Cristina Baracat

Estamos acostumados na vida cotidiana a cuidar somente de nossas dores físicas. Esquecemos que ela é um aviso, ou melhor, um alarme de que algo em nossa alma não se encontra bem.

A causa da dor física não estaria primeiro em nosso espírito, ou seja, em nossos hábitos contrários às leis divinas?

Em Missionários da Luz, escrito por André Luiz (Espírito) e psicografado por Chico Xavier, no capítulo 19, intitulado Passes, narra-se o caso de um senhor, que frequenta uma casa espírita, e está em tratamento.

André Luiz descreve a cena:   

À nossa frente estava um cavalheiro idoso, que o orientador examinou com atenção. Por minha vez, observei-lhe o fígado e o baço, que acusavam enorme desequilíbrio.

O chefe de auxílio esclarece que ele está em tratamento através do passe pela décima vez:

- Lastimável! - exclamou o chefe do auxílio, depois de longa perquirição. -Entretanto, apenas poderemos aliviá-lo. Agora, após dez vezes de socorro completo, é preciso deixá-lo entregue a si mesmo, até que adote nova resolução.

Anacleto explica que o aparente insucesso na cura da doença daquele homem está relacionado aos seus antigos hábitos:

- Este homem, não obstante simpatizar com nossas atividades espiritualizantes, é portador de um temperamento menos simpático, por extremamente caprichoso. Estima as rixas frequentes, as discussões apaixonadas, o império de seus pontos de vista. Não se acautela contra o ato de encolerizar-se e desperta incessantemente a cólera e mágoa dos que lhe desfrutam a companhia. Tornou-se, por isso mesmo, o centro de convergência de intensas vibrações destruidoras. (...)

Anacleto esclarece como a providência divina tem atuado no caso em questão:

Frequenta-nos há pouco mais de três meses e, durante esse tempo, já lhe fizemos as dez operações de socorro integral, alijando-lhe as cargas malignas, não só dos pensamentos de angústia e represália que ele provoca nos outros, mas também dos pensamentos cruéis que fabrica para si. (...)

Anacleto fala sobre a interrupção do socorro, para que a dor atue como processo educativo. Considera que no momento oportuno, ele receberá novamente o auxílio completo:

Agora, temos que interromper o serviço de libertação por algum tempo. A sós com sua experiência forte, aprenderá lições novas e ganhará muitos valores. Mais tarde, receberá, de novo, o socorro completo.

Esse fato encerra grande lição.

Sequer refletimos sobre a dor. Simplesmente lamentamos: Estou doente, quero me curar, não mereço passar por isso.

Esquecemos que a doença física é apenas o efeito de nossas atitudes, ou seja, de nossos antigos hábitos. Ainda é difícil para nós, seres de um planeta em evolução, cuidarmos primeiro da alma.

Quem sabe no futuro, não muito distante, a doença física não seja mais necessária? Mas até lá, compreendamos que ela é mecanismo da misericórdia divina para os nossos ajustes em busca da harmonia maior.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Epitáfio




Epitáfio
                              Cristina Baracat
Entrou na avenida, driblando o trânsito.  Estava atrasado para o trabalho. Começava às 8: 00 h e só parava às 10:00 h da noite. Dentro do carro, ouvia Titãs: Devia ter complicado menos/ Trabalhado menos/ Ter visto o sol se pôr...
Pela primeira vez, refletira sobre o fato de nunca estar satisfeito. Sempre a procura de algo que ele não sabia exatamente. Tinha a impressão de carregar um peso descomunal! Por quê? Sempre quis vender mais e conseguiu. Trocou o velho carro por um novo. Depois, o próximo passo será coordenar o setor de vendas e ganhar mais!
Momentos depois, perdeu a noção do trânsito parado. Uma leveza tomou o seu corpo. Seria o calor?  Era como se o vento soprasse no mesmo rumo em que ele seguia. Lembrou-se do menino, pescando na beira do rio, dos quadros que gostava de pintar. Sem culpa, voou naquele pensamento.
O que havia mudado, se ele era o mesmo? Lembrou-se do último sermão do padre, quando levou a mãe à missa dominical. Não queria ir, mas ela chegara do interior de Minas para visitá-lo.
A voz do clérigo ecoou na igreja: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; (LUCAS, 10:38-42)
Pensou consigo: O discurso já está pronto! Aceitaria o convite para coordenar as vendas não só do estado, mas do país! No entanto, a voz do padre retornou em seus ouvidos: E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. (LUCAS, Cap 10, versículo  38-42)
Sem maior hesitação, freou bruscamente o veículo. Os motoristas reclamaram. Bateram buzinas. Um pouco mais de coragem e pegou o retorno, fazendo o caminho de volta para casa. Imaginou-se abrindo um pequeno negócio no interior de Minas. Teria tempo para pescar e quem sabe, voltaria a pintar quadros!
Abriu um sorriso espontâneo, como não fazia há muito tempo. Continuou ouvindo o rádio: Devia ter arriscado mais e até errado mais/ Ter feito o que eu queria fazer....