Epitáfio
Cristina Baracat
Entrou na avenida,
driblando o trânsito. Estava atrasado
para o trabalho. Começava às 8: 00 h e só parava às 10:00 h da noite. Dentro do
carro, ouvia Titãs: Devia
ter complicado menos/ Trabalhado menos/ Ter visto o sol se pôr...
Pela
primeira vez, refletira sobre o fato de nunca estar satisfeito. Sempre a
procura de algo que ele não sabia exatamente. Tinha a impressão de carregar um
peso descomunal! Por quê? Sempre quis vender mais e conseguiu. Trocou o velho
carro por um novo. Depois, o próximo passo será coordenar o setor de vendas e
ganhar mais!
Momentos
depois, perdeu a noção do trânsito parado. Uma leveza tomou o seu corpo. Seria
o calor? Era como se o vento soprasse no
mesmo rumo em que ele seguia. Lembrou-se do menino, pescando na beira do rio,
dos quadros que gostava de pintar. Sem culpa, voou naquele pensamento.
O
que havia mudado, se ele era o mesmo? Lembrou-se do último sermão do padre,
quando levou a mãe à missa dominical. Não queria ir, mas ela chegara do
interior de Minas para visitá-lo.
A
voz do clérigo ecoou na igreja: Marta, Marta, estás ansiosa e
afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; (LUCAS, 10:38-42)
Pensou
consigo: O discurso já está pronto! Aceitaria o convite para coordenar as
vendas não só do estado, mas do país! No entanto, a voz do padre retornou em
seus ouvidos: E Maria escolheu a boa parte, a
qual não lhe será tirada. (LUCAS, Cap 10, versículo 38-42)
Sem
maior hesitação, freou bruscamente o veículo. Os motoristas reclamaram. Bateram
buzinas. Um pouco mais de coragem e pegou o retorno, fazendo o caminho de volta
para casa. Imaginou-se abrindo um pequeno negócio no interior de Minas. Teria
tempo para pescar e quem sabe, voltaria a pintar quadros!
Abriu
um sorriso espontâneo, como não fazia há muito tempo. Continuou ouvindo o
rádio: Devia ter arriscado mais e até errado mais/ Ter feito o
que eu queria fazer....

Lindo, mô!
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