sexta-feira, 1 de junho de 2018

De filho pra pai





                                                                De filho pra pai 

                                                                               Cristina Baracat

Marcelino chegou com uma surpresa em casa. Fez inscrição para o vestibular. O pai o parabenizou e só depois ele contou que tinha feito duas inscrições. Uma delas era para o velho.
No início, o pai ficou em dúvida. Sempre ganhou o sustento para si e para a família como corretor de imóveis. O dinheiro era a conta para criar os cinco filhos.  Mas verdade era que ele sempre gostou de história. Quando os filhos eram crianças, para distraí-los, inventava personagens com base em fatos históricos: Ele era o expedicionário que havia lutado na Itália durante a 2ª. Guerra Mundial. O pequeno apartamento tornava-se um festival de acampamentos de guerra, feitos de cadeiras cobertas com lençóis. Local onde os filhos e os sobrinhos se esforçavam para deter os alemães.
Anos depois, pai e filho se formaram em história. O rapaz casou-se. Passou num concurso público para lecionar no interior. Mudou-se para uma vidinha tranquila de cidade pequena, onde se gasta pouco e se bobear, com muita economia, dá até pra comprar umas terrinhas.
Vez em quando, Marcelino visitava os pais e trazia consigo os netos. Certa feita, o filho decidiu. Iria fazer uma pós-graduação. Encaixe perfeito. Seria sempre no período de férias. Sendo na capital, conciliaria estudo e visita aos pais.
Quando concluiu o curso de pós-graduação, o filho percebeu que faltava um pequeno grande detalhe. Mas já era tempo de voltar para o interior. Os pais ainda dormiam, quando cedo partiu com os pequenos e esposa para pegar estrada. Antes, deixou um envelope em cima da mesa com um bilhete: Velho, deixei um presente pra você. Não se esqueça de olhar!
Ao se levantar, o pai abriu a surpresa conforme a recomendação do filho. Era um trabalho de história a ser feito de uma disciplina da pós-graduação que faltava para a conclusão do curso.
Desnecessário dizer que o pai se esmerou na tarefa. Um mês depois, chegava pelo correio ao filho o resultado da disciplina que faltava com louvores do mestre: Excelente! Marcelino, ocupado na lida diária, engavetou o trabalho: Caso resolvido!
Mas aconteceu o dia da faxina! São aqueles momentos em que estamos entulhados de coisas e nem sabemos o motivo pelo qual elas ainda estão lá: papéis, roupas velhas! Era a vez do pai e da mãe fazerem a visita. O filho caprichou na limpeza da casa!
No café informal, comemorando a chegada dos pais, Marcelino comentou rindo: Velho, encontrei nesses dias aquele trabalho da disciplina da pós-graduação em história! Tirei uma ótima nota! Só não tinha reparado até então na dedicatória da capa escrita assim: Este trabalho é dedicado ao meu pai, companheiro das horas fáceis e difíceis!
O pai olhou a dedicatória e riu convulsivamente da troca de papéis. Doce vindita!!!!