De filho pra pai
Cristina Baracat
Marcelino
chegou com uma surpresa em casa. Fez inscrição para o vestibular. O pai o parabenizou
e só depois ele contou que tinha feito duas inscrições. Uma delas era para o
velho.
No início, o
pai ficou em dúvida. Sempre ganhou o sustento para si e para a família como
corretor de imóveis. O dinheiro era a conta para criar os cinco filhos. Mas verdade era que ele sempre gostou de
história. Quando os filhos eram crianças, para distraí-los, inventava personagens
com base em fatos históricos: Ele era o expedicionário que havia lutado na
Itália durante a 2ª. Guerra Mundial. O pequeno apartamento tornava-se um
festival de acampamentos de guerra, feitos de cadeiras cobertas com lençóis.
Local onde os filhos e os sobrinhos se esforçavam para deter os alemães.
Anos depois,
pai e filho se formaram em história. O rapaz casou-se. Passou num concurso público
para lecionar no interior. Mudou-se para uma vidinha tranquila de cidade
pequena, onde se gasta pouco e se bobear, com muita economia, dá até pra
comprar umas terrinhas.
Vez em quando,
Marcelino visitava os pais e trazia consigo os netos. Certa feita, o filho
decidiu. Iria fazer uma pós-graduação. Encaixe perfeito. Seria sempre no
período de férias. Sendo na capital, conciliaria estudo e visita aos pais.
Quando concluiu
o curso de pós-graduação, o filho percebeu que faltava um pequeno grande
detalhe. Mas já era tempo de voltar para o interior. Os pais ainda dormiam,
quando cedo partiu com os pequenos e esposa para pegar estrada. Antes, deixou
um envelope em cima da mesa com um bilhete: Velho,
deixei um presente pra você. Não se esqueça de olhar!
Ao se
levantar, o pai abriu a surpresa conforme a recomendação do filho. Era um
trabalho de história a ser feito de uma disciplina da pós-graduação que faltava
para a conclusão do curso.
Desnecessário
dizer que o pai se esmerou na tarefa. Um mês depois, chegava pelo correio ao
filho o resultado da disciplina que faltava com louvores do mestre: Excelente! Marcelino, ocupado na lida
diária, engavetou o trabalho: Caso resolvido!
Mas aconteceu
o dia da faxina! São aqueles momentos em que estamos entulhados de coisas e nem
sabemos o motivo pelo qual elas ainda estão lá: papéis, roupas velhas! Era a
vez do pai e da mãe fazerem a visita. O filho caprichou na limpeza da casa!
No café
informal, comemorando a chegada dos pais, Marcelino comentou rindo: Velho, encontrei nesses dias aquele trabalho
da disciplina da pós-graduação em história! Tirei uma ótima nota! Só não tinha reparado
até então na dedicatória da capa escrita assim: Este trabalho é dedicado ao meu
pai, companheiro das horas fáceis e difíceis!
O pai olhou a
dedicatória e riu convulsivamente da troca de papéis. Doce vindita!!!!

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