sexta-feira, 18 de maio de 2018

Metafonia


                                                       


                                     Metafonia
      - Fenômeno em que o timbre da vogal é alterado quando usado no plural. Metafonia. Um exemplo claro seria caroço X caroços, corpo X corpos, ovo X ovos.
     - Não sei fritar um ovo!

    - O que está acontecendo nesta sala de aula, Clarice? Qual o motivo do comentário?

     - Profe, eu disse pro Jonathan que eu não sei fritar um ovo.

     - Aí, eu sei cozinhar. Na quebrada do Jacarezinho, com oito anos eu já fazia comida no fogão a lenha pra quatro irmãos enquanto minha mãe tava no trampo. - Respondeu o garoto. -

    - Uai, qual o problema de eu não saber fritar um ovo? Minha mãe quer fazer pra mim, eu deixo. - Respondeu Clarice -

   -Jonathan, você...talvez pela forma como pronuncia o s... é carioca? - perguntou a professora -

    - Quando eu vim do Rio de Janeiro, eu era aviãozinho.... Tu sabe, né?

    - Mais ou menos...

    -Minha missão era ficar com o rádio, tipo na escuta. Lá do morro eu avisava quem chegava na área, tá ligada?

  -Uhn...entendi, mas voltando à metafonia... - respondeu a professora, com certo receio em continuar naquele assunto e ficar “visada” -

  -Pera aí, profe. Vida loca hein, Jonathan? - questionou Clarice, interrompendo a mestra, picada pelo vírus da curiosidade -

 -Entrei pra “vida loca” porque a gata engravidou. Eu precisava de grana rápido!

 -E como é que você estacionou aqui, neste point, tipo vindo daquela “vida loca”? - interrogou Clarice. -

 - Teve uma noite.... a galera toda na marcação, preparando pro baile funk. O som tava manero, tudo rolando de boa...e aí.... Entrou outra galera no baile pra detonar com a gente. Todo mundo antenado. Olho  no olho, fuzil no movimento....

 - Nossa!!!! E você lá no meio da galera? - interrogou Clarice -

 -Aí, eu encarei. Os camarada que carregava  fuzil  era da minha idade, 15 ou 16 anos....Na moral, quando acabou o baile funk, só vi neguinho estirado no chão, cravado de AK12, AK 15. Fiquei de frente pra morte. Aí eu firmei na minha mente. Queria viver. Me mandei pra BH.  Eu tenho um tio que mora aqui, na Pedreira Prado Lopes. Pedi guarida e ele me deu. Agora, eu tenho um trabalho aqui. Tiro xerox na universidade...consegui sair daquela vida loca, mas pra isso rolar, eu tive que pular fora do Jacarezinho pra cá.

A professora crispou as mãos. Ela tinha que avisar:

 -Pessoal, o sinal bateu.



   Cristina Baracat