CHICO, A MENINA E A JANELA
Cristina Baracat
Margareth Menezes
Na
rua, o caos do trânsito em Belo Horizonte. No correio, cabisbaixa, a
funcionária se ressentia do excesso de trabalho. Chamou o próximo da fila. Era um
homem, com uma carta simples. Percebeu a cara amuada da atendente. Saudou-a,
dizendo; “Nada nos falta!”
A
moça sorriu sem graça e o senhor completou com bom humor, dando tapinhas na sua
barriga avantajada: “Nada nos falta mesmo!”
Gordinha,
a funcionária não resistiu à cena e riu. Ele sacou do bolso uma foto e mostrou-lhe
Chico Xavier. Olhando o retrato, ela abriu um sorriso e exclamou que o conheceu
na infância. Tinha três anos de idade, mas tinha a sensação que tinha sido no
dia anterior...
Intrigado,
o homem perguntou o que havia acontecido. A moça respondeu que a família de seu
pai era de Pedro Leopoldo. A fim de conhecer o avô, ela, o pai, a mãe e a irmã saíram
de Itabira até Belo Horizonte, e, depois de seis horas de viagem, embarcaram
para Pedro Leopoldo. Contou que era uma menina franzina, debilitada e doente.
Nada parava no seu estômago. Hospedaram-se na casa do avô.
O
tio Nuca, frequentador do Centro Espírita Luiz Gonzaga, foi visitá-los e ficou
comovido ao vê-la naquele estado. Pediu aos seus pais para levá-la até ao Chico.
Muito católicos, eles ficaram receosos. Mas o avô intercedeu e permitiram.
Quando
ela chegou ao Centro Espírita, o Chico a carregou no colo e levou-a para uma
janela. Lá, havia uma paisagem comum de Minas Gerais, mas para ela foi uma
visão diferente, que ficou na memória. Não se lembrava do que ele dissera, nem
do seu rosto, mas a música que ele cantou, ficou marcada em seu coração.
O
senhor a interrompeu e perguntou que música era. Ela sorriu e começou a cantar com suavidade,
como se o tempo parasse: “Mãezinha do Céu, eu não sei rezar/ só sei
repetir, eu quero te amar/ Azul é teu manto, branco é teu véu/ Mãezinha eu
quero te ver lá no céu...”
Depois, quando
cresceu, sua mãe contou que Chico Xavier lhe deu um copo d’água para beber e
disse que nunca mais ela iria sofrer daquele mal.
Incerto
pela pausa da moça, o homem perguntou se havia algo mais. A mulher lembrou-se: “Anos
mais tarde minha mãe acrescentou que cheguei em casa e dormi muito. Um sono tão profundo que ficaram preocupados.”
E a menina nunca mais teve nada de mal. Mas...
aquela janela... a paisagem... ela não esqueceu
mais. Nem a canção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário