segunda-feira, 1 de abril de 2013

Chico, a menina e a janela


CHICO, A MENINA E A JANELA

 

Cristina Baracat

Margareth Menezes

 

Na rua, o caos do trânsito em Belo Horizonte. No correio, cabisbaixa, a funcionária se ressentia do excesso de trabalho. Chamou o próximo da fila. Era um homem, com uma carta simples. Percebeu a cara amuada da atendente. Saudou-a, dizendo; “Nada nos falta!”

A moça sorriu sem graça e o senhor completou com bom humor, dando tapinhas na sua barriga avantajada: “Nada nos falta mesmo!”

Gordinha, a funcionária não resistiu à cena e riu. Ele sacou do bolso uma foto e mostrou-lhe Chico Xavier. Olhando o retrato, ela abriu um sorriso e exclamou que o conheceu na infância. Tinha três anos de idade, mas tinha a sensação que tinha sido no dia anterior...

Intrigado, o homem perguntou o que havia acontecido. A moça respondeu que a família de seu pai era de Pedro Leopoldo. A fim de conhecer o avô, ela, o pai, a mãe e a irmã saíram de Itabira até Belo Horizonte, e, depois de seis horas de viagem, embarcaram para Pedro Leopoldo. Contou que era uma menina franzina, debilitada e doente. Nada parava no seu estômago. Hospedaram-se na casa do avô.

O tio Nuca, frequentador do Centro Espírita Luiz Gonzaga, foi visitá-los e ficou comovido ao vê-la naquele estado. Pediu aos seus pais para levá-la até ao Chico. Muito católicos, eles ficaram receosos. Mas o avô intercedeu e permitiram.

Quando ela chegou ao Centro Espírita, o Chico a carregou no colo e levou-a para uma janela. Lá, havia uma paisagem comum de Minas Gerais, mas para ela foi uma visão diferente, que ficou na memória. Não se lembrava do que ele dissera, nem do seu rosto, mas a música que ele cantou, ficou marcada em seu coração.

O senhor a interrompeu e perguntou que música era.  Ela sorriu e começou a cantar com suavidade, como se o tempo parasse: “Mãezinha do Céu, eu não sei rezar/ só sei repetir, eu quero te amar/ Azul é teu manto, branco é teu véu/ Mãezinha eu quero te ver lá no céu...”

Depois, quando cresceu, sua mãe contou que Chico Xavier lhe deu um copo d’água para beber e disse que nunca mais ela iria sofrer daquele mal.

Incerto pela pausa da moça, o homem perguntou se havia algo mais. A mulher lembrou-se: “Anos mais tarde minha mãe acrescentou que cheguei em casa e dormi muito.  Um sono tão profundo que ficaram preocupados.”

 E a menina nunca mais teve nada de mal. Mas... aquela  janela... a paisagem... ela  não  esqueceu mais. Nem a canção.

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