segunda-feira, 15 de abril de 2013

Exercício na 3a. idade


Exercício na 3ª.  idade 

                                          Cristina Baracat

          A idosa fazia a sua caminhada no escuro. O médico recomendou. Explico: tinha o hábito de acordar cedo.  Cinco  da madruga já estava de pé.

         Detalhe: ela morava perto do cemitério.  A residência das “almas” era cercada por um muro baixo ocupando por três  quarteirões, e, do lado  externo da rua, havia um  largo passeio, facilitando esse tipo de  exercício físico.

         Ah!  Chamava-se dona Leonina. O pai  escolheu esse nome. Dizia que a filha tinha os mesmos olhos espertos da avó e  a braveza de uma leoa!  

No entanto, ela era conhecida pelos vizinhos como dona Leozinha.  Ainda escuro, nossa  jovem velhinha  bebeu uma xícara de café e saiu para a caminhada. O sussurro do vento mais parecia vozes saídas do cemitério.

         Enquanto andava, dona Leozinha olhou para trás. Dez metros de distância e  viu o vulto de um homem. Era alto e usava casaco preto. Por precaução, ela apertou o passo.   

         O homem aumentou a velocidade.  Era como se quisesse alcançá-la. Dona Leozinha olhou de novo para trás. O desconhecido se aproximava cada vez mais.

Ela tentou apressar-se. Não adiantou. As pernas já não eram as mesmas do tempo da mocidade. Ele agora já estava ao seu lado. A aposentada o mirou de cima até embaixo. Era um homem excessivamente magro e pálido. Dona Leozinha resolveu cumprimentá-lo, mas ele continuava a olhá-la de modo fixo e em silêncio.   

Aquela situação se tornara desconcertante. A senhora suava frio, enquanto pensava que o melhor seria continuar a caminhar.  De relance, viu que o tal sujeito segurava um revólver na mão direita.  

Dona Leozinha já pensava em fazer companhia aos mortos do cemitério  e preparava-se para se despedir deste mundo. Era o fim. Alguém se lembraria dela?

De uma hora para outra, o homem quebrou o silêncio e perguntou: “A senhora não tem medo de andar sozinha  nestas  horas da madrugada, ainda no escuro?” A idosa teve a impressão de ver nele certo  prazer ao percebê-la  com  medo.

         Dona Leozinha arregalou bem os olhos antes de responder. Sentiu toda a água do seu corpo se transformar em suor, gotejando pelo rosto. Com uma tranquilidade que ela mesma não saberia de onde havia saído, disse:  “Quando eu era viva, sim!”

         O homem estacou, depois se recompôs, e, sem nada responder, apertou o passo, quase correu. Em questão de minutos, nossa aposentada o observava, virando a esquina.

Dona Leozinha, intrigada, pensou: “Caramba! Esse sujeito tem fôlego. Me deixou pra trás na caminhada !”

 

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