Exercício na 3ª. idade
Cristina Baracat
A
idosa fazia a sua caminhada no escuro. O médico recomendou. Explico: tinha o
hábito de acordar cedo. Cinco da madruga já estava de pé.
Detalhe: ela morava perto do cemitério.
A residência das “almas” era cercada por
um muro baixo ocupando por três quarteirões, e, do lado externo da rua, havia um largo passeio, facilitando esse tipo de exercício físico.
Ah!
Chamava-se dona Leonina. O pai
escolheu esse nome. Dizia que a filha tinha os mesmos olhos espertos da
avó e a braveza de uma leoa!
No
entanto, ela era conhecida pelos vizinhos como dona Leozinha. Ainda escuro, nossa jovem velhinha bebeu uma xícara de café e saiu para a caminhada.
O sussurro do vento mais parecia vozes saídas do cemitério.
Enquanto andava, dona Leozinha olhou
para trás. Dez metros de distância e viu
o vulto de um homem. Era alto e usava casaco preto. Por precaução, ela apertou
o passo.
O homem aumentou a velocidade. Era como se quisesse alcançá-la. Dona Leozinha
olhou de novo para trás. O desconhecido se aproximava cada vez mais.
Ela
tentou apressar-se. Não adiantou. As pernas já não eram as mesmas do tempo da
mocidade. Ele agora já estava ao seu lado. A aposentada o mirou de cima até embaixo.
Era um homem excessivamente magro e pálido. Dona Leozinha resolveu cumprimentá-lo,
mas ele continuava a olhá-la de modo fixo e em silêncio.
Aquela
situação se tornara desconcertante. A senhora suava frio, enquanto pensava que
o melhor seria continuar a caminhar. De
relance, viu que o tal sujeito segurava um revólver na mão direita.
Dona
Leozinha já pensava em fazer companhia aos mortos do cemitério e preparava-se para se despedir deste mundo.
Era o fim. Alguém se lembraria dela?
De
uma hora para outra, o homem quebrou o silêncio e perguntou: “A senhora não tem
medo de andar sozinha nestas horas da madrugada, ainda no escuro?” A idosa
teve a impressão de ver nele certo
prazer ao percebê-la com medo.
Dona
Leozinha arregalou bem os olhos antes de responder. Sentiu toda a água do seu
corpo se transformar em suor, gotejando pelo rosto. Com uma tranquilidade que
ela mesma não saberia de onde havia saído, disse: “Quando eu era viva, sim!”
O homem estacou, depois se recompôs, e,
sem nada responder, apertou o passo, quase correu. Em questão de minutos, nossa
aposentada o observava, virando a esquina.
Dona
Leozinha, intrigada, pensou: “Caramba! Esse sujeito tem fôlego. Me deixou pra
trás na caminhada !”
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