quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lá vem o Tinhoso




Lá vem o Tinhoso
                                     Cristina Baracat[1]

                                                                             Este conto é dedicado à memória de Orestes Sachi, membro  fundador do Sindicato dos Químicos em Iguatama,  falecido em 13 dezembro de 2012

            Eliotério? Sei bem. Trabalhou é tempo naquela fábrica que fazia de um tudo com o leite. No entretanto, o moderno chega alavancando tudo! Mais a chefia que põe qualquer um no cabresto: é uniforme pra cá, bota no pé, capacete, tal e qual ...
            Eliotério não era homem de se acertar com essas novidades. Apreciava o trabalho solto, livre. Sem nada pra apertar a costela. Um dia pediu conta e lá não pisou mais, nem pra buscar a botina!
Procurou o amigo Januário que tinha uns acres de terra. Homem de coração bom e firme. De sorriso estampado, respondeu: “Eliotério, carece de dividir colheita não, home! Te empresto um naco de terra. Depois da colheita, ocê compra um pedaço pro cê.”
            Eliotério era felicidade pura, que nem água da fonte! Se alevantava antes do clareado do dia. E toca o trabalho na plantação! Nem atinou pro rodopeio que a vida costuma dá na gente. Semana veio a mando de Deus com chuva e não parou mais. Água abaixo e moça donzela quando quer casar ninguém segura! E foi-se embora a plantação de cará. Tudo perdido!
            Correu a buscar o vigário. O padre apurou no conselho: “Homem de Deus! Que não! Querer afrontar o Divino com o mal palavreado? Eliotério, meu filho, reze o rosário inteiro com a Ave-Maria e o Pai-Nosso!”
Eliotério, cativo, obedeceu. Rezou, fez promessa. Foi no terreiro de mãe Benedita, tomou um banho de descarrego com sal grosso. Tentou de um tudo e nos finalmente foi buscar conselho no amigo Januário. O amigo, só no silêncio, puxou o fio da barba, matutou, olho no olho  assuntou: “Por que ocê não faz um trato mais o Tinhoso?”
            Eliotério foi pego no pulo: “Einh????”  Januário repetiu na calma: “Por que ocê não faz um trato mais o Tinhoso?” Eliotério era homem pegado na religião. Firme em Jesus e na Virgem Maria. No entretanto, tudo nesse mundo tem uma banda e outra. Um rio?  Margem de lá e de cá!  Mão e pé? Dois! E por aí lá vai! Que mal tem em tocar um acerto com o Tal?
            O palavreado de Januário repicava feito sino de matriz. Depois de muito matutar, Eliotério, na Sexta-feira 13, foi caçar uma encruzilhada. Apressou 1 hora no trato com o Tal. Chegou onze da noite. Queria tudo nos trinques!
Levou no embornal um Ebó com pinga da boa, frango com quiabo, farofa e uma fartura de vela preta e branca! Tudo pra causar boa vista pro danado do Canhoto! Era esperar a meia-noite, e o Tal chegava no prego, estalando a espora!
            Meia-noite passada. Silêncio só. Eliotério esticou o olho pra pinga e estalou a língua: “Um gole e pronto...” Abriu a garrafa. E a golada veio e repique e mais outra... Com satisfação no entretido, bebeu metade.
            Aí é que ele firmou na escuta. Lá vem um sino repicando no meio do mato! Aprumou pra mais o ouvido. Apareceu o Um num rompante e cresceu no vulto! Esperto no disfarce de um boi preto dos grandes com um sino amarrado no pescoço!
            Eliotério alargou o enrolado da língua por conta da água que passarinho não bebe: “Noite boa, Seu Tinhoso!” Deu até cambalhota pra fazer boniteza pro Tal. Eliotério explicou pro Canhoto a sua complicação. Ofereceu o resto da pinga com a farofa. Arrodeou e depois apertou feito espingarda na mira: “Negócio bom é Vossa Mercê Tinhoso arrecadar a minha alma. Eu, aqui, fico e cuido por demais da riqueza de Vossa Realeza.” O boi deu de responder Eliotério: “MUUUUU!” No entretido da hora, o boi cansou e foi embora.
            Eliotério encabulou. Voltou firme pra tocaia. A fome apertando...Que mal tem um belisco? Comeu um bocado da farofa e do frango. Tomou mais da cachaça. Aprumou a orelha e lá veio um barulho pisoteando o mato. Arregalou o olho e viu! Alevantou cambaleando e disparou: “Lá vem a??? Num é que a Danada é... Tinhosa-Mulher?!” Disfarçada que era de uma cobra da grande!
Eliotério derramou o rosário no vem-e-traz. Não deu sorte na plantação de cará.... Queria um adjutório pra tocar um seu negócio... Fez mesura e ofertou o que sobrou do frango com quiabo e da farofa. A garrafa lá ia esvaziando. Cruz credo! A Tinhosa nem mexia, parada feito um toco de pau! Ah! No sem-querer é que ele não ficava! Aí Eliotério esticou o trato: “Ô dona Cobra, se Vossa Mercê tem querência, ponho no negócio a alma do meu amigo Januário!” A Danada deu meia-volta e do mesmo jeito que despontou, sumiu mato adentro.
            Eliotério matutou por demais, deu suspiro e soltou a voz num rompante: “Tem querência não! Essa gente, que tem parte com o Tal, tem é mania de rico pra comilança!”. Olhou a sobra da farofa, do frango com quiabo e da cachaça: comeu, bebeu, dormiu e manhãzinha alevantou no pulo que o sol corria faz tempo lá na altura dessas Minas Gerais!



[1] O conto narrado, ocorrido na cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros agradecimentos a Manoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.

Nenhum comentário:

Postar um comentário