Lá
vem o Tinhoso
Cristina
Baracat[1]
Este conto é dedicado à memória de
Orestes Sachi, membro fundador do
Sindicato dos Químicos em Iguatama, falecido em 13 dezembro de 2012
Eliotério? Sei bem. Trabalhou é
tempo naquela fábrica que fazia de um tudo com o leite. No entretanto, o
moderno chega alavancando tudo! Mais a chefia que põe qualquer um no cabresto:
é uniforme pra cá, bota no pé, capacete, tal e qual ...
Eliotério não era homem de se
acertar com essas novidades. Apreciava o trabalho solto, livre. Sem nada pra apertar
a costela. Um dia pediu conta e lá não pisou mais, nem pra buscar a botina!
Procurou
o amigo Januário que tinha uns acres de terra. Homem de coração bom e firme. De
sorriso estampado, respondeu: “Eliotério, carece de dividir colheita não, home!
Te empresto um naco de terra. Depois da colheita, ocê compra um pedaço pro cê.”
Eliotério era felicidade pura, que
nem água da fonte! Se alevantava antes do clareado do dia. E toca o trabalho na
plantação! Nem atinou pro rodopeio que a vida costuma dá na gente. Semana veio
a mando de Deus com chuva e não parou mais. Água abaixo e moça donzela quando
quer casar ninguém segura! E foi-se embora a plantação de cará. Tudo perdido!
Correu a buscar o vigário. O padre
apurou no conselho: “Homem de Deus! Que não! Querer afrontar o Divino com o mal
palavreado? Eliotério, meu filho, reze o rosário inteiro com a Ave-Maria e o
Pai-Nosso!”
Eliotério,
cativo, obedeceu. Rezou, fez promessa. Foi no terreiro de mãe Benedita, tomou
um banho de descarrego com sal grosso. Tentou de um tudo e nos finalmente foi
buscar conselho no amigo Januário. O amigo, só no silêncio, puxou o fio da
barba, matutou, olho no olho assuntou: “Por que ocê
não faz um trato mais o Tinhoso?”
Eliotério foi pego no pulo:
“Einh????” Januário repetiu na calma:
“Por que ocê não faz um trato mais o Tinhoso?” Eliotério era homem pegado na
religião. Firme em Jesus e na Virgem Maria. No entretanto, tudo nesse mundo tem
uma banda e outra. Um rio? Margem de lá
e de cá! Mão e pé? Dois! E por aí lá vai!
Que mal tem em tocar um acerto com o Tal?
O palavreado de Januário repicava
feito sino de matriz. Depois de muito matutar, Eliotério, na Sexta-feira 13,
foi caçar uma encruzilhada. Apressou 1 hora no trato com o Tal. Chegou onze da
noite. Queria tudo nos trinques!
Levou
no embornal um Ebó com pinga da boa, frango com quiabo, farofa e uma fartura de
vela preta e branca! Tudo pra causar boa vista pro danado do Canhoto! Era
esperar a meia-noite, e o Tal chegava no prego, estalando a espora!
Meia-noite passada. Silêncio só.
Eliotério esticou o olho pra pinga e estalou a língua: “Um gole e pronto...”
Abriu a garrafa. E a golada veio e repique e mais outra... Com satisfação no
entretido, bebeu metade.
Aí é que ele firmou na escuta. Lá vem
um sino repicando no meio do mato! Aprumou pra mais o ouvido. Apareceu o Um num
rompante e cresceu no vulto! Esperto no disfarce de um boi preto dos grandes
com um sino amarrado no pescoço!
Eliotério alargou o enrolado da língua por conta da água que passarinho não bebe: “Noite boa, Seu Tinhoso!” Deu até
cambalhota pra fazer boniteza pro Tal. Eliotério explicou pro Canhoto a sua
complicação. Ofereceu o resto da pinga com a farofa. Arrodeou e depois apertou
feito espingarda na mira: “Negócio bom é Vossa Mercê Tinhoso arrecadar a minha
alma. Eu, aqui, fico e cuido por demais da riqueza de Vossa Realeza.” O boi deu
de responder Eliotério: “MUUUUU!” No entretido da hora, o boi cansou e foi
embora.
Eliotério encabulou. Voltou firme
pra tocaia. A fome apertando...Que mal tem um belisco? Comeu um bocado da
farofa e do frango. Tomou mais da cachaça. Aprumou a orelha e lá veio um
barulho pisoteando o mato. Arregalou o olho e viu! Alevantou cambaleando e disparou:
“Lá vem a??? Num é que a Danada é... Tinhosa-Mulher?!” Disfarçada que era de
uma cobra da grande!
Eliotério
derramou o rosário no vem-e-traz. Não deu sorte na plantação de cará.... Queria
um adjutório pra tocar um seu negócio... Fez mesura e ofertou o que sobrou do frango
com quiabo e da farofa. A garrafa lá ia esvaziando. Cruz credo! A
Tinhosa nem mexia, parada feito um toco de pau! Ah! No sem-querer é que ele não
ficava! Aí Eliotério esticou o trato: “Ô dona Cobra, se Vossa Mercê tem
querência, ponho no negócio a alma do meu amigo Januário!” A Danada deu
meia-volta e do mesmo jeito que despontou, sumiu mato adentro.
Eliotério matutou por
demais, deu suspiro e soltou a voz num rompante: “Tem querência não! Essa
gente, que tem parte com o Tal, tem é mania de rico pra comilança!”. Olhou a
sobra da farofa, do frango com quiabo e da cachaça: comeu, bebeu, dormiu e manhãzinha alevantou
no pulo que o sol corria faz tempo lá na altura dessas Minas Gerais!
[1]
O conto narrado, ocorrido na
cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros
agradecimentos a Manoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de
histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.

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