O
velório do Quim
Cristina Baracat [1]
Este conto é dedicado à memória de
Orestes Sachi, membro fundador do
Sindicato dos Químicos em Iguatama, falecido em 13 dezembro de 2012
Não
conheci neste mundo sujeito mais matreiro pra contar um causo do que o falecido
Quim, que Deus o tenha.
Alembro que nem hoje. Saiu pra
pescar na beira do rio São Francisco. Levou junto o seu relógio pesado em ouro.
O homem podia na gastança, fazendeiro que era na compra e venda do gado. Ele
virava emoção quando pegava um peixe de 70 quilos! Lá isso era verdade. Vi com
esse olho que a terra há de comer!
E não é que o Quim larga o relógio
na beira do rio dependurado na árvore? Voltou lá 10 anos depois pra pescar de
novo. E o diabo do relógio estava lá na tal árvore. Quietinho, esperando por
ele! Conta outra, sô! Ô bicho danado pra inventar uma história!
O velório de Quim foi tristeza só. A
viúva, dona Miguelina, chorava sem trégua. A fazenda apinhou de gente chegada
das redondezas.
Fabiano e Custódio, amigos do peito
do falecido, preocupados com a serventia, arrazoaram na ideia. A solução era
servir o povo no velório com galinhada no arroz bem temperado.
Fabiano cuidou de buscar os pertences
e preparar a comilança. Custódio foi atrás da cachaça da boa, branquinha, segredo
seu mais do defunto. O velho guardava no porão da fazenda.
Deu uma, duas, três horas da madrugada e o
povo não parava nem de beber e nem de comer. A cachaça rareou e as galinhas
acabaram. Fabiano matutou e deu início: “E se a gente arrematar dinheiro com
esse povo no velório do Quim? Cada um dá um pingado e a merenda é comprada com
fartura!” Custódio não só concordou como puxou do seu chapéu surrado pra aparar
o dinheiro recolhido.
A viúva do Quim, vendo o movimento
de arrecadação no entorno do caixão, foi até o quarto e voltou com uma nota de
R$ 50,00. Queria dar um adjutório com os quitutes pra servir os visitantes do
falecido.
Mas a boa consideração fala mais
alto! Custódio tomou a dianteira e com a voz empertigada pelos goles da boa
cachaça fez a mesura: “Carece não, dona Miguelina! Guarde o seu dinheiro que a
senhora já entrou com o defunto!”
[1]
O conto narrado, ocorrido na
cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros
agradecimentos a Manoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de
histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.

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