sexta-feira, 30 de março de 2018

O velório do Quim







O velório do Quim
                                    Cristina Baracat [1]

Este conto é dedicado à memória de Orestes Sachi, membro  fundador do Sindicato dos Químicos em Iguatama,  falecido em 13 dezembro de 2012

            Não conheci neste mundo sujeito mais matreiro pra contar um causo do que o falecido Quim, que Deus o tenha. 
            Alembro que nem hoje. Saiu pra pescar na beira do rio São Francisco. Levou junto o seu relógio pesado em ouro. O homem podia na gastança, fazendeiro que era na compra e venda do gado. Ele virava emoção quando pegava um peixe de 70 quilos! Lá isso era verdade. Vi com esse olho que a terra há de comer!
            E não é que o Quim larga o relógio na beira do rio dependurado na árvore? Voltou lá 10 anos depois pra pescar de novo. E o diabo do relógio estava lá na tal árvore. Quietinho, esperando por ele! Conta outra, sô! Ô bicho danado pra inventar uma história!
            O velório de Quim foi tristeza só. A viúva, dona Miguelina, chorava sem trégua. A fazenda apinhou de gente chegada das redondezas.
            Fabiano e Custódio, amigos do peito do falecido, preocupados com a serventia, arrazoaram na ideia. A solução era servir o povo no velório com galinhada no arroz bem temperado.
            Fabiano cuidou de buscar os pertences e preparar a comilança. Custódio foi atrás da cachaça da boa, branquinha, segredo seu mais do defunto. O velho guardava no porão da fazenda.
             Deu uma, duas, três horas da madrugada e o povo não parava nem de beber e nem de comer. A cachaça rareou e as galinhas acabaram. Fabiano matutou e deu início: “E se a gente arrematar dinheiro com esse povo no velório do Quim? Cada um dá um pingado e a merenda é comprada com fartura!” Custódio não só concordou como puxou do seu chapéu surrado pra aparar o dinheiro recolhido.
            A viúva do Quim, vendo o movimento de arrecadação no entorno do caixão, foi até o quarto e voltou com uma nota de R$ 50,00. Queria dar um adjutório com os quitutes pra servir os visitantes do falecido.
            Mas a boa consideração fala mais alto! Custódio tomou a dianteira e com a voz empertigada pelos goles da boa cachaça fez a mesura: “Carece não, dona Miguelina! Guarde o seu dinheiro que a senhora já entrou com o defunto!”





[1] O conto narrado, ocorrido na cidade de Iguatama, foi acrescido pela imaginação literária. Meus sinceros agradecimentos a Manoel Bibiano, ex-prefeito de Iguatama e exímio contador de histórias. Agradeço também a acolhida do casal Tonico e Edna.




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