sábado, 17 de março de 2018

Fim de linha




Fim de linha

Cristina Baracat


Noite quente, ônibus lotado com o pessoal voltando do trabalho. De sorte, se o coletivo estivesse um pouco vazio, daria  até pra ler um livro, ou entrar na rede social pelo celular.
Um rapaz deu sinal para o motorista. O ônibus parou. O moço que entrou era  alto, negro, de boa aparência e de físico musculoso. Só causou estranhamento pelo seu olhar vermelho, arregalado!. Parecia denotar perturbação e ausência de sono. Algo queria explodir dentro dele - pressentira um passageiro mais observador-.
O certo seria dizer que suas ideias pareciam embaralhadas em turbilhão, enquanto pensava: A Norma estava ali, dentro daquele ônibus! Com os olhos esbugalhados, aumentou a voz: Norma, onde você está? Motorista, não arranca não! Estou procurando a Norma! Visivelmente irritado, olhou com ira para o motorista claramente assustado. Ele que não ousasse arrancar o ônibus!
Uma mocinha de óculos, sentada na cadeira do coletivo, olhou para o rapaz que passava por ela demonstrando fúria e pensou indignada que sentia fome. Queria chegar em casa logo e comer nem que fosse um ovo frito com arroz.
Um outro passageiro, que lia para passar o tempo, fechou a leitura para ver aonde aquele rapaz iria chegar.
Uma  adolescente de piercing no nariz e cabelos avermelhados olhou para o rapaz que se dirigia para os fundos do ônibus e cochichou algo no ouvido do namorado.
Um senhor no ofício de mestre de obras, aflito para chegar em casa, depois de tocar parte de uma obra pesada na construção de um shopping, pensou em ligar para a mulher, avisando que poderia se atrasar.
Uma senhora que aparentava quarenta anos, sentada no banco do meio, nem sequer olhou para os lados. Talvez aquele rapaz que passava por ela estivesse armado e ela precisava chegar viva em casa para fazer o jantar dos filhos. Quem sabe aquele moço estivesse com algum canivete no bolso?
O coração daquele rapaz batia acelerado. Ah! Se alguém pudesse ouvi-lo! O descompasso do seu coração não correspondia à cadência do bar do Gregório, com cerveja gelada e roda de pagode. A culpa era daquele Marquinho  de Boa, era assim o apelido daquele otário, daquele Mané! Se insinuando, se achegando para a Norma. E ela saboreando a cerveja gelada, sambando...Aquele Mané tirando a camisa pra se mostrar... Agora não tinha mais volta! A Norma tinha que confessar o que ele viu!
A tortura se prolongava para os passageiros daquele ônibus, parado por ordem daquele moço. Afinal, ele era quem pra aprontar tudo aquilo? O motorista pensou em ligar para a polícia. Melhor não! Hoje em dia não se sabe quem anda armado e a coisa podia piorar!
Fim de linha. O rapaz chegara no fundo do ônibus. A Norma não estava lá. Desapontado, agora humilde, bem diferente do tom majestoso e descontrolado quando entrara no ônibus, retrocedeu os passos. Jurava que ela estaria ali. Como desaparecera? Escapara  como água entre os seus dedos?!
Retornou lento e cabisbaixo. Chegou até o motorista, que agora suspendera a respiração, engolindo seco. Olhando para o chão, o rapaz pediu: Desculpa aí, chefia! A Norma não está aqui não! Vai ver ela pegou o buzum da frente.
Ao dizer isso, desceu do ônibus derrotado, humilde, cabisbaixo. Só então o motorista respirou aliviado. Acertou a marcha e seguiu em frente.





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