Fim de linha
Cristina Baracat
Noite quente, ônibus lotado com
o pessoal voltando do trabalho. De sorte, se o coletivo estivesse um pouco
vazio, daria até pra ler um livro, ou
entrar na rede social pelo celular.
Um rapaz deu sinal para o
motorista. O ônibus parou. O moço que entrou era alto, negro, de boa aparência e de físico
musculoso. Só causou estranhamento pelo seu olhar vermelho, arregalado!.
Parecia denotar perturbação e ausência de sono. Algo queria explodir dentro
dele - pressentira um passageiro mais observador-.
O certo seria dizer que suas
ideias pareciam embaralhadas em turbilhão, enquanto pensava: A Norma estava ali,
dentro daquele ônibus! Com os olhos esbugalhados, aumentou a voz: Norma, onde você está? Motorista, não
arranca não! Estou procurando a Norma! Visivelmente irritado, olhou com ira
para o motorista claramente assustado. Ele que não ousasse arrancar o ônibus!
Uma mocinha de óculos, sentada
na cadeira do coletivo, olhou para o rapaz que passava por ela demonstrando
fúria e pensou indignada que sentia fome. Queria chegar em casa logo e comer
nem que fosse um ovo frito com arroz.
Um outro passageiro, que lia para
passar o tempo, fechou a leitura para ver aonde aquele rapaz iria chegar.
Uma adolescente de piercing no nariz e cabelos avermelhados olhou para o rapaz que se
dirigia para os fundos do ônibus e cochichou algo no ouvido do namorado.
Um senhor no ofício de mestre
de obras, aflito para chegar em casa, depois de tocar parte de uma obra pesada
na construção de um shopping, pensou em ligar para a mulher, avisando que
poderia se atrasar.
Uma senhora que aparentava
quarenta anos, sentada no banco do meio, nem sequer olhou para os lados. Talvez
aquele rapaz que passava por ela estivesse armado e ela precisava chegar viva
em casa para fazer o jantar dos filhos. Quem sabe aquele moço estivesse com
algum canivete no bolso?
O coração daquele rapaz batia acelerado.
Ah! Se alguém pudesse ouvi-lo! O descompasso do seu coração não correspondia à
cadência do bar do Gregório, com cerveja gelada e roda de pagode. A culpa era
daquele Marquinho de Boa, era assim o apelido daquele
otário, daquele Mané! Se insinuando, se achegando para a Norma. E ela
saboreando a cerveja gelada, sambando...Aquele Mané tirando a camisa pra se
mostrar... Agora não tinha mais volta! A Norma tinha que confessar o que ele
viu!
A tortura se prolongava para
os passageiros daquele ônibus, parado por ordem daquele moço. Afinal, ele era
quem pra aprontar tudo aquilo? O motorista pensou em ligar para a polícia.
Melhor não! Hoje em dia não se sabe quem anda armado e a coisa podia piorar!
Fim de linha. O rapaz chegara
no fundo do ônibus. A Norma não estava lá. Desapontado, agora humilde, bem
diferente do tom majestoso e descontrolado quando entrara no ônibus, retrocedeu
os passos. Jurava que ela estaria ali. Como desaparecera? Escapara como água entre os seus dedos?!
Retornou lento e cabisbaixo.
Chegou até o motorista, que agora suspendera a respiração, engolindo seco.
Olhando para o chão, o rapaz pediu: Desculpa
aí, chefia! A Norma não está aqui não! Vai ver ela pegou o buzum da frente.
Ao dizer isso, desceu do
ônibus derrotado, humilde, cabisbaixo. Só então o motorista respirou aliviado.
Acertou a marcha e seguiu em frente.

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