O negócio é o seguinte.....
Cristina Baracat
Difícil explicar os anos 80 no
Brasil. Tentarei. Foi uma geração que viveu o apogeu e o declínio do regime
militar. A juventude queria respirar a todo custo. Em suma, viver o que não
foi, mas poderia ser.
Naquela década, o país foi palco de
passeatas estudantis pelo fim da Ditadura Militar e pelas Diretas já. Estava
eu no 3º ano científico. Hoje se diz Ensino Médio! Curioso pensar em
novas nomeclaturas que cada governo decide para a
educação durante o mandato. Fazem questão de ignorar as mudanças reais
como o salário dos professores e a qualidade no ensino. Exemplo disso
foram as recentes manifestações em 2013. Um participante segurava um cartaz
onde estava escrito: Escola não é depósito: 35 alunos + 1 professor
não dá!
Obs!!! Peço desculpas se iniciei
pelos anos 80 e mudei para 2013. Mas é impossível uma retrospectiva sem
alusões, mesmo que sejam breves.
Bem, agora retorno à década
mencionada no início deste texto. Eu estudava no Colégio Estadual Central
quando um grupo de alunos passou nas salas e avisou que naquele mesmo dia
haveria uma manifestação pelas Diretas já na Praça da Rodoviária, início
da avenida Afonso Pena a partir das 17:00 horas. Naquela época, não havia Facebook
e os avisos eram na garganta mesmo. Por telefone não dava porque era
caro! E nem mesmo o celular havia sido inventado! Depois disso, a reação foi
imediata. Os estudantes começaram a bater com a palma das mãos nas carteiras
vibrando toda a escola. Era um sinal de que o recado foi dado.
Em torno das 19:00 horas,
a manifestação já contava com cerca de 400 mil pessoas! Os
trabalhadores e moradores dos prédios em torno jogavam papel picado para saudar
a multidão. Homens e mulheres formavam uma grande corrente espalhando-se pela
avenida.
Osmar Santos, conhecido narrador de
futebol na época, fez a apresentação do comício. O ator Denis Carvalho iniciou
o discurso lembrando um diálogo com o filho no qual ele indagava ao pai por que
ele não podia votar para presidente? Fafá de Belém cantou o
Hino Nacional. Milton Nascimento e o antropólogo Darcy Ribeiro também estavam
lá.
Os políticos, adorados por uns e
criticados por outros, apesar das polêmicas ideológicas, uniram os seus
propósitos e marcaram presença: Lula, Brizola, Tancredo Neves, Ulisses
Guimarães...
Um festival de camisetas multicores
desfilava pelas ruas no coração dos jovens com os dizeres: Ufa! Votei!...
Diretas para presidente!... Diretas Já!... Diretas já com Liberdade! ...
Os tecidos variavam: vermelho, branco,preto, amarelo, verde e azul!
Tempos depois, ainda na década de 80,
lembro-me de uma ocupação dos estudantes na reitoria da PUC. Em assembleia,
o DCE chamava os integrantes dos DAs para se expressarem. No
palco improvisado, um estudante do DCE fez a chamada: Curso de Letras!
Silêncio. Novamente: Curso de Letras! Até que, depois de algum tempo,
apareceu uma militante. Ela custou, mas criou coragem para falar. Porém,
surgiu uma dúvida. Como iniciar um discurso? Não tinha o hábito de
falar em público! Lembrou-se de ter lido alguns manuais da UNE. Seus líderes
sempre começavam assim: O negócio é o seguinte ....! O negócio é o
seguinte....!?!
A estudante ficou vermelha, depois
mudou para um tom pálido. A assembleia, como sempre, estava na expectativa de
um discurso empolgante! Então ela pensou e finalmente iniciou: O negócio é o
seguinte .... Depois de pronunciar essas palavras, sentiu que a língua
destravou. Agora era continuar!
Hoje, penso não existir um paralelo
entre as manifestações atuais e as da década de 80. Talvez uma continuidade.
Antes, Liberdade era a palavra chave. Hoje, o tema continua o
mesmo, apenas mais pontual: Queremos metrô, abaixo a PEC 37, Escola não e
depósito....
E a juventude? Ela continua nas ruas.

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