quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Memoria de menina






MEMÓRIA DE MENINA
Cristina Baracat
Testemunha ocular na casa de minha avó materna, eu ouvia tudo, ou quase tudo do que acontecia quando era criança. Até hoje, quando visito minhas tias, os mesmos móveis estão lá, provas vivas daquilo que presenciei. Até o sofá na copa, onde minha avó conversava com os filhos já casados, que ao visitá-la, continua no mesmo lugar.
Lembro-me também de minha avó conversando com meu tio avô. Sentados à mesa, enquanto almoçavam. Eu contava as pimentas que eles retiravam do vidro. Depois, amassavam-nas com o garfo no prato. Meus olhos ardiam, só em pensar naquelas pimentas grandes e vermelhas.
Meu tio avô sempre chegava com balas, chocolates, e eu corria com as mãos estendidas, para recebê-las. Depois pedia: canta aquela música. Então, ele começava: Havia uma barata na careca do vovô/ foi assim que ela me viu/ bateu asas e voou/ seu Joaquim, quirim-quim/ da perna tor-tá-rá-tá/ dançando só-só-ró-só/ com a Marico-tá-rá-tá!
Mas não era só essa a parte da história. Década de 70, Ditadura Militar, meu tio, que era médico, trabalhava na Medicina Legal. Minha avó ouvia os desabafos de todos os filhos. Durante a visita, ele confidenciava: Meu colega negou-se a dar um laudo sobre a morte de um estudante e foi demitido.
Aos domingos, era o dia de visita do tio mais novo com a esposa e filhos. Minha tia também trabalhava na Medicina Legal. Era o seu dia de confidência: Minha sogra, um estudante, um jovem aparentando uns 19 anos... Cheguei pra trabalhar mais cedo. Silêncio total. Fiquei magoada porque nenhum colega de trabalho me preveniu. Entrei pelo corredor e fui surpreendida por um homem de negro, que saiu não sei de onde e sacou uma metralhadora para mim. Imagina o susto! Os pais do garoto vieram do Rio. Mostraram o retrato dele. Era um rapaz lindo, olhos claros. Não deixaram os pais verem o menino. Horrível... O garoto tinha o rosto todo marcado de queimaduras de ponta de cigarro...
Passados alguns dias, numa manhã aparentemente tranquila, minha avó me chamou. Senta aqui. Eu, obediente, sentei ao seu lado. Então, ela começou: Se um dia, um velhinho, com ar de bonzinho, vier, conversar com você e oferecer balas, não aceite! E, se ele perguntar... Seu pai é da ARENA ou do MDB? Responde que o seu pai é da ARENA (partido do governo na época).
Minha imaginação de criança avistava um velhinho de negro, chapéu e bengala, sentado num banquinho, me fazendo perguntas sugeridas por minha avó.
Cresci e já adolescente, com 14 anos, numa bela tarde no centro de Belo Horizonte, por volta das seis, com o trânsito agitado na avenida Afonso Pena em frente ao Parque Municipal, eu ouvia as manifestações estudantis: Abaixo a Ditadura!
Curioso quando esses fatos retornam à minha lembrança depois de adulta. Meditei sobre esse fato ao me recordar da minha “vidinha” de criança: um mundo, de acordo com a passagem do Evangelho segundo o espiritismo, de expiações e de provas. Se por um lado, me divertia com as brincadeiras, também não deixava de viver o lado triste, melancólico, das pessoas que me rodeavam.
Meu tio avô faleceu primeiro. Minha avó chegou quase aos cem anos de idade! Hoje, todas essas vozes me acompanham, me visitam quando eu escrevo. Estão vivas, ou melhor, todos estão lá, presentes em minha memória do tempo de menina.


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