MEMÓRIA DE
MENINA
Cristina Baracat
Testemunha
ocular na casa de minha avó materna, eu ouvia tudo, ou quase tudo do que
acontecia quando era criança. Até hoje, quando visito minhas tias, os mesmos
móveis estão lá, provas vivas daquilo que presenciei. Até o sofá na copa, onde
minha avó conversava com os filhos já casados, que ao visitá-la, continua no
mesmo lugar.
Lembro-me
também de minha avó conversando com meu tio avô. Sentados à mesa, enquanto
almoçavam. Eu contava as pimentas que eles retiravam do vidro. Depois,
amassavam-nas com o garfo no prato. Meus olhos ardiam, só em pensar naquelas
pimentas grandes e vermelhas.
Meu
tio avô sempre chegava com balas, chocolates, e eu corria com as mãos estendidas,
para recebê-las. Depois pedia: canta
aquela música. Então, ele começava: Havia
uma barata na careca do vovô/ foi assim que ela me viu/ bateu asas e voou/ seu Joaquim,
quirim-quim/ da perna tor-tá-rá-tá/ dançando só-só-ró-só/ com a Marico-tá-rá-tá!
Mas
não era só essa a parte da história. Década de 70, Ditadura Militar, meu tio,
que era médico, trabalhava na Medicina Legal. Minha avó ouvia os desabafos de
todos os filhos. Durante a visita, ele confidenciava: Meu colega negou-se a dar um laudo sobre a morte de um estudante e foi
demitido.
Aos
domingos, era o dia de visita do tio mais novo com a esposa e filhos. Minha tia
também trabalhava na Medicina Legal. Era o seu dia de confidência: Minha sogra, um estudante, um jovem aparentando
uns 19 anos... Cheguei pra trabalhar mais cedo. Silêncio total. Fiquei magoada
porque nenhum colega de trabalho me preveniu. Entrei pelo corredor e fui
surpreendida por um homem de negro, que saiu não sei de onde e sacou uma
metralhadora para mim. Imagina o susto! Os pais do garoto vieram do Rio. Mostraram
o retrato dele. Era um rapaz lindo, olhos claros. Não deixaram os pais verem o menino.
Horrível... O garoto tinha o rosto todo marcado de queimaduras de ponta de cigarro...
Passados
alguns dias, numa manhã aparentemente tranquila, minha avó me chamou. Senta aqui. Eu, obediente, sentei ao seu
lado. Então, ela começou: Se um dia, um
velhinho, com ar de bonzinho, vier, conversar com você e oferecer balas, não aceite! E, se ele perguntar... Seu pai é da ARENA
ou do MDB? Responde que o seu pai é
da ARENA (partido do governo na época).
Minha
imaginação de criança avistava um velhinho de negro, chapéu e bengala, sentado
num banquinho, me fazendo perguntas sugeridas por minha avó.
Cresci
e já adolescente, com 14 anos, numa bela tarde no centro de Belo Horizonte, por
volta das seis, com o trânsito agitado na avenida Afonso Pena em frente ao
Parque Municipal, eu ouvia as manifestações estudantis: Abaixo a Ditadura!
Curioso
quando esses fatos retornam à minha lembrança depois de adulta. Meditei sobre
esse fato ao me recordar da minha “vidinha” de criança: um mundo, de acordo com
a passagem do Evangelho segundo o espiritismo, de expiações
e de provas. Se por um lado, me divertia com as brincadeiras, também
não deixava de viver o lado triste, melancólico, das pessoas que me rodeavam.
Meu
tio avô faleceu primeiro. Minha avó chegou quase aos cem anos de idade! Hoje, todas
essas vozes me acompanham, me visitam quando eu escrevo. Estão vivas, ou
melhor, todos estão lá, presentes em minha memória do tempo de menina.

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