terça-feira, 3 de setembro de 2013

No ônibus da vida - 3

                                                  NO ÔNIBUS DA VIDA - 3

                                                              Frans  Lourenço
     Ando lendo a coleção de uns pequenos, mas grandes livros, pelos temas que abordam.  Um outro olhar, do padre Libânio, contém suas homilias, dirigidas aos fiéis que vão assistir às suas missas. 
       Cheguei a esses livros por intermédio de um colega de trabalho, que comentou comigo o que acabara de ler em um deles e achara interessante. E conversa vai, conversa vem, eu disse a ele que a minha religião é a minha ética. Não faço a outrem aquilo que não quero que façam comigo. Nem bem tinha falado  isso, vou comprar os tais livros, e lendo o índice de um deles, lá está: “Ser cristão é mais que ser ético.” Era como se a fala do padre estivesse no ar, esperando para dar a mim  o seu aviso, do qual agora me sirvo para  escrever esta crônica.Ser cristão, diz ele, é ser mais que ético, porque é necessário algo mais, ou seja: é ver o fio salvador em quem está precisando de ajuda, e mostrar a ele que nem tudo está perdido. E oferecer a mão para ajudar!
      No início da carreira, eu dava aula na favela do Sumaré, e tendo a escola alunos bem problemáticos no ensino fundamental, a diretora os encaminhava para mim, já que alguns colegas não sabiam como lidar com eles e não os queriam em suas salas. E inadvertidamente até lhes dirigiam palavras inadequadas, que os deixavam mais fragilizados e, consequentemente, mais marginalizados ainda. Aceitando o que me pedia a diretora, o que primeiro me norteava era a ética, a qual eu punha em prática, para trabalhar com tais alunos. E da rebeldia que eles me mostravam, eu tirava proveito para analisar e saber até onde me aproximar, até aonde ir  com cada um deles.  Praticava então a filosofia cristã, uma vez que tentava reciclá-los, mostrando-lhes a direção que deviam seguir, para não acabarem no lixão da vida. Não me neguei a eles, nem me aproveitei de suas fragilidades. Tentei ajudar como pude aqueles pequenos seres em formação, quando era o tempo de nossos caminhos se cruzarem, naquela escola estadual. Mas esse tempo passou, e eu nunca soube se consegui fazê-los trilhar o melhor caminho e, em caso positivo, se ainda o seguem, agora que são adultos, homens e mulheres, dos quais não tenho sequer  notícias. Só espero que não tenham encontrado, nas suas andanças por este mundo afora, os tristes e perigosos cegos de entendimento, aos quais faltou quem lhes ensinasse os princípios ideais da conduta humana, que tão bem orientam aqueles que são transparentes e confiáveis. 
     “Ser cristão é mais que ser ético”, diz o padre na sua prática.O que sei é que sendo ético dá para abraçar qualquer religião, seja ela budista, cristã, islâmica, judaica, ou qualquer outra que pregue o amor ao próximo. No entanto, se deixamos de cumprir os princípios morais, não podemos professar nenhuma delas, já que estaremos mentindo para nós mesmos, e seremos protagonistas de uma grande farsa engendrada pela nossa mente. A ética nos faz íntegros e nos ajuda a viver a nossa humanidade da melhor maneira possível. E também nos enobrece.

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