quarta-feira, 8 de maio de 2013

Hora marcada


Hora marcada  
                                                                    Cristina Baracat 
                                     
Acontece, porém, que o inesperado surge de repente, carreando bens ou males que a criatura,
sempre  acalentada pela esperança, não conta receber de improviso. [1]

Chuva fina cobria a paisagem de arranha-céus e casas penduradas entre morros e montanhas em Belo Horizonte.
      Sentiu um calafrio percorrer o corpo. A cabeça lhe doía, pesava sobre os ossos. Um leve suor escorria de suas mãos finas e frias.
      Olhou ao redor. A casa estava deserta. Sabia que tinha um compromisso marcado para 3 horas da tarde. O marido e os filhos saíram na frente.  Por que não a esperaram? Algo lhe dizia que estava atrasada e não poderia faltar. Quando o telefone tocou, de manhã bem cedo, ainda atordoada, levantou-se para atender. Anotou no papel algumas orientações: velório 7, enterro às 15: 00 horas.
       Entrou no quarto, calçou um sapato simples, vestiu um casaco marrom. Passou um leve batom rosa nos lábios. Pegou as chaves do carro e deu a partida. Chegaria a tempo? Olhou o relógio. Faltavam dez minutos para as 3: 00 horas.
        Ligou o rádio do carro. De onde estava chegaria rápido. Por que não se lembrava de quem seria o velório? Estava confusa quando atendeu a ligação telefônica. Devia ser um colega de trabalho do marido que faleceu. Ela precisava estar lá. Por que o marido levara os dois filhos adolescentes? Seria alguém da família que havia morrido? Tentou o celular. Desligado.
      Finalmente, conseguiu estacionar dentro do cemitério. Consultou o relógio: 15 horas e 5 minutos. Ainda chegaria a tempo. Olhou o papel anotado e localizou o número do velório. Percebeu que o cortejo saía com uma pequena multidão. Aliviada, respirou fundo. Clima estranho aquele: sol com chuva, casamento de viúva!
     À medida que se aproximava, as pessoas do cortejo fúnebre foram se fazendo familiares. À frente, o marido e os dois filhos. Atrás, a mãe, as cunhadas e as sogras. Alguns primos e colegas de trabalho também estavam lá.
     Aproximou-se, enlaçou-se nos braços do marido. No entanto, ele estava tão compenetrado que nem percebeu a sua chegada.  O cortejo estacou no local onde seria o enterro. O caixão abriu-se. Rosas brancas foram jogadas sobre o corpo que repousava sobre a paz silenciosa dos mortos.
Fixou o olhar sobre o caixão. Sentiu uma dor aguda. Segurou-se nos braços do esposo para não cair. Os filhos de olhos vermelhos jogavam rosas brancas. Sentiu-se sem lugar e espaço. Articulou palavras soltas, desconexas. Ninguém a ouvia! Dirigiu-se aos familiares e eles não respondiam aos seus apelos. Por que todos a ignoravam?
Um leve abatimento tomou conta do seu semblante. De novo, aquela sensação de sem tempo e sem espaço invadiu o seu cérebro. Apalpou-se, sentindo o seu corpo.
De suas mãos, um frio suor escorria. O que seria a morte? Sentiu um líquido escorrendo de sua testa. E aquelas mãos cruzadas lá dentro, sobre o peito? De quem eram?
O mesmo casaco marrom, o batom rosa de minutos atrás. Ela estava ali, bem à sua frente, dentro do caixão. Quem era ela afinal? Como poderia ocupar dois lugares ao mesmo tempo? Estaria ao lado do marido e dos filhos? Ninguém lhe explicou como seria a passagem.
Sentiu outro calafrio. Ao longe, avistou alguém. Era um homem alto, de cabelos grisalhos e blusa branca. Ele era o único que conseguia vê-la. Sentiu certo alívio, afinal, ela existia. 
Um senhor de blusa branca acenou para ela e convidou-a para ir com ele. Mas... para onde? Uma insegurança atravessou-lhe os sentidos. Olhou para trás, percebeu que naquele funeral, ela era ignorada. Ali não haveria lugar e nem espaço.
Olhou com imenso carinho para cada um dos seus familiares e amigos. Depois, virou-se e seguiu com o homem de blusa branca. Ele buscou as suas mãos, segurando-as com firmeza. Seu coração ainda sentia a mesma indecisão de antes.
Com suas dores e velhas lembranças, recomeçou com passos trôpegos. Aos poucos, firmou as pernas. Era preciso  seguir adiante.     



[1] Psicografia de  Francisco C. Xavier, em Uberaba, no Grupo Espírita  da Prece, na noite de 21 de junho de 1980, dirigida à esposa sra. Irene Netto, o médico José  Murillo  Netto fala sobre a sua desencarnação e do que já aprendeu em quase três anos no mundo espiritual.

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