Hora marcada
Cristina Baracat
Acontece, porém,
que o inesperado surge de repente, carreando bens ou males que a criatura,
Chuva
fina cobria a paisagem de arranha-céus e casas penduradas entre morros e
montanhas em Belo Horizonte.
Sentiu um calafrio percorrer o corpo.
A cabeça lhe doía, pesava sobre os ossos. Um leve suor escorria de suas mãos
finas e frias.
Olhou ao redor. A casa estava
deserta. Sabia que tinha um compromisso marcado para 3 horas da tarde. O marido
e os filhos saíram na frente. Por que
não a esperaram? Algo lhe dizia que estava atrasada e não poderia faltar. Quando
o telefone tocou, de manhã bem cedo, ainda atordoada, levantou-se para atender.
Anotou no papel algumas orientações: velório 7, enterro às 15: 00 horas.
Entrou no quarto, calçou um sapato
simples, vestiu um casaco marrom. Passou um leve batom rosa nos lábios. Pegou
as chaves do carro e deu a partida. Chegaria a tempo? Olhou o relógio. Faltavam
dez minutos para as 3: 00 horas.
Ligou o rádio do carro. De onde
estava chegaria rápido. Por que não se lembrava de quem seria o velório? Estava
confusa quando atendeu a ligação telefônica. Devia ser um colega de trabalho do
marido que faleceu. Ela precisava estar lá. Por que o marido levara os dois
filhos adolescentes? Seria alguém da família que havia morrido? Tentou o
celular. Desligado.
Finalmente, conseguiu estacionar
dentro do cemitério. Consultou o relógio: 15 horas e 5 minutos. Ainda chegaria
a tempo. Olhou o papel anotado e localizou o número do velório. Percebeu que o
cortejo saía com uma pequena multidão. Aliviada, respirou fundo. Clima estranho
aquele: sol com chuva, casamento de
viúva!
À medida que se aproximava, as
pessoas do cortejo fúnebre foram se fazendo familiares. À frente, o marido e os
dois filhos. Atrás, a mãe, as cunhadas e as sogras. Alguns primos e colegas de
trabalho também estavam lá.
Aproximou-se, enlaçou-se nos braços
do marido. No entanto, ele estava tão compenetrado que nem percebeu a sua
chegada. O cortejo estacou no local onde
seria o enterro. O caixão abriu-se. Rosas brancas foram jogadas sobre o corpo
que repousava sobre a paz silenciosa dos mortos.
Fixou
o olhar sobre o caixão. Sentiu uma dor aguda. Segurou-se nos braços do esposo
para não cair. Os filhos de olhos vermelhos jogavam rosas brancas. Sentiu-se
sem lugar e espaço. Articulou palavras soltas, desconexas. Ninguém a ouvia! Dirigiu-se
aos familiares e eles não respondiam aos seus apelos. Por que todos a
ignoravam?
Um
leve abatimento tomou conta do seu semblante. De novo, aquela sensação de sem tempo
e sem espaço invadiu o seu cérebro. Apalpou-se, sentindo o seu corpo.
De
suas mãos, um frio suor escorria. O que seria a morte? Sentiu um líquido
escorrendo de sua testa. E aquelas mãos cruzadas lá dentro, sobre o peito? De
quem eram?
O
mesmo casaco marrom, o batom rosa de minutos atrás. Ela estava ali, bem à sua
frente, dentro do caixão. Quem era ela afinal? Como poderia ocupar dois lugares
ao mesmo tempo? Estaria ao lado do marido e dos filhos? Ninguém lhe explicou
como seria a passagem.
Sentiu
outro calafrio. Ao longe, avistou alguém. Era um homem alto, de cabelos grisalhos
e blusa branca. Ele era o único que conseguia vê-la. Sentiu certo alívio,
afinal, ela existia.
Um senhor de blusa branca acenou para ela e convidou-a para ir com ele. Mas...
para onde? Uma insegurança atravessou-lhe os sentidos. Olhou para trás, percebeu
que naquele funeral, ela era ignorada. Ali não haveria lugar e nem espaço.
Olhou
com imenso carinho para cada um dos seus familiares e amigos. Depois, virou-se e
seguiu com o homem de blusa branca. Ele buscou as suas mãos, segurando-as com
firmeza. Seu coração ainda sentia a mesma indecisão de antes.
Com
suas dores e velhas lembranças, recomeçou com passos trôpegos. Aos poucos,
firmou as pernas. Era preciso seguir adiante.
[1] Psicografia de Francisco C. Xavier, em Uberaba, no Grupo
Espírita da Prece,
na noite de 21 de junho de 1980, dirigida à esposa sra. Irene Netto, o médico
José Murillo Netto fala sobre a sua desencarnação e do que
já aprendeu em quase três anos no mundo
espiritual.
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