Pão
de Açúcar e bondinho
Cristina
Baracat
Década
de setenta, o Brasil vivia a euforia de ser tricampeão na Copa do Mundo. O
regime militar ditava as regras. A Austrália e a
Nova Zelândia retiravam-se do Vietnã. Os
Estados Unidos reduziam, assim, o número de soldados na guerra. Mas isso era insignificante para os meus seis anos de idade.
O
importante era a formatura
no pré-primário do colégio São Pascoal, no bairro caiçara em Belo
Horizonte. A turma comemorou o rito de
passagem com um chapéu de soldado feito de papel com as cores do Brasil. Cantamos
na apresentação Eu te
amo meu Brasil da dupla Dom e Ravel, sucesso nas paradas do rádio.
Outro
acontecimento: Meus pais, tios e vó juntaram dinheiro durante o ano afim de conhecerem o Rio de Janeiro. Eu me perguntava:
Como seria o mar para alguém nascida e
criada entre as montanhas? Uma piscina é fácil, mas... e o oceano?
A
família alugou um pequeno apartamento em Copacabana. Ninguém reclamou da falta
de espaço. Afinal, para que existiam colchões extras e sofás? Os passeios no
Rio é que fariam a diferença.
No
entanto, uma cena ficou retida em minha memória. Eu, de mãos dadas com o meu
pai, atravessando de bondinho em direção ao Pão de Açúcar. Maravilha! Acima, o
infinito do ar, abaixo, o azul do mar! Três americanos conversavam entre si,
dentro daquele pequeno espaço. Eu, já cantava algumas musiquinhas em inglês na
escola e o meu ouvido identificava, apesar de criança, o idioma dos estrangeiros.
Não
perdi a oportunidade de chamar atenção de meu pai. Adorava quando ele comentava
com os adultos o que eu fazia ou dizia. Ele era o meu herói! Então, perguntei:
“Papai, porque essas pessoas estão falando enrolado?” Conforme eu esperava, ele
achou graça da minha pergunta, e
explicou-me pacientemente o que eu já sabia: “ São americanos e estão
conversando em inglês.”
Como
me diverti nesse passeio! E os adultos? Acho que são crianças crescidas. Duvido
que alguém não tenha cometido loucuras em qualquer idade ou tenha feito as
maiores idiotices para ser correspondido por aqueles a quem amamos!

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