CANÇÃO DO EXILADO
Frans de Lourenço
Cansada do trabalho (mesmo aposentada, trabalho ainda), mas feliz por não dever nada a ninguém, nem mesmo ao governo, entro no ônibus para ir embora para casa. Lá dentro, além de umas poucas notícias e convites à gentileza urbana, o jornal da Prefeitura Municipal estampa o poema mais famoso de Gonçalves Dias. Começo a lê-lo. De repente, uma voz mais alta me tira da leitura:
-Você não pode entrar por aí, moço, tem que passar pela porta da frente e rodar a roleta!
Ao que retruca o jovem rapaz:
- Você não sabe quem eu sou, trocadora,de onde eu venho...
O motorista, mais preocupado com o semáforo, agora verde, põe o ônibus para rodar, e não ouve o que diz aquele estranho passageiro, com sua voz firme:
- Eu quero dizer a todos que estão me escutando, que fui humilhado pelos homens que me tiraram de onde eu estava. Este é o alvará de soltura que consegui, ainda a pouco, na penitenciária. Quem duvidar deste papel aqui pode pegar e ler. Articulei, e os policiais me soltaram,agora, no fim da tarde. Pedi a eles um adjutório, uma ajuda qualquer para pegar o ônibus pra ir embora para a minha terra, mas não... não me deram...não me deram nada. Mas como podem soltar uma pessoa sem dinheiro e pedir para ela circular, sumir, ir rodando? Não sou daqui, não tenho ninguém aqui, e eu preciso voltar para a minha terra. Vocês já ouviram falar no Primeiro Comando da Capital, não é? Não pertenço ao PCC, mas sim a uma organização parecida, que é fiel, justa e muito humana. Se eu der um tapa na cara de alguém, eles vão querer saber por que eu fiz isso. Quem faz parte dela, da minha organização, tem que andar na linha! Sou traficante e ladrão, ladrão de gente rica, de gente fina; de pobre, não roubo não! Também sei respeitar mulher, que a polícia joga na nossa cela e fica ali, presa, junto da gente. Tenho mãe, irmãs... No momento o que quero é voltar pra minha terra, o mais rápido possível, mas não tenho dinheiro. Por isso estou me humilhando, e muito, diante de vocês, pedindo um trocado, uma colaboração. Quem puder me ajudar que me ajude, quem não puder não tem importância. Que cada um escute sua consciência, seu coração!
Quem poderia deixar de ajudar a esse homem novo, forte, recém-saído de uma penitenciária de segurança máxima? Quem ousaria não se condoer dele, diante de sua fala tão apelativa, tão incisiva?Todos que estávamos no ônibus tiramos do nosso dinheiro e fizemos fila para entregá-lo ao desditoso passageiro, que se dizia carente e humilhado. Não teve ali dentro quem não dividisse com ele o pouco que levava nos bolsos.
Quando se certificou da grandeza dos nossos sentimentos, o jovem rapaz, de rosto inquietante, virou-se para a trocadora e disse que não pagaria a passagem porque não havia rodado a roleta. E com um “muito obrigado” e um “fiquem com Deus”desceu do ônibus, deixando lá dentro a sua e a nossa grande humilhação, para a alegria de todos. (O que é a humilhação num momento desse?)
O coletivo põe-se a rodar novamente, e em vão eu tento continuar a leitura do poema do Gonçalves, através do qual, no exílio, o poeta exaltou brilhantemente a nossa terra. Isso foi no tempo em que aquele “lá”do quarto verso,ainda não era isto aqui.
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