terça-feira, 23 de abril de 2019

Be-a-bá




Be-a-bá

                                         
                                          Autora: Cristina Baracat


             Aos seis anos, no pré-primário, a professora fazia um esforço tremendo para que eu associasse as palavras. Eu sofria, porque era uma mistura de timidez aliada ao medo da repreensão por não saber.
            Irmã Terezinha indicava-me o quadro, mostrava-me um caminhão desenhado com giz colorido, e, ao lado, a representação escrita. Mas o pavor tomava conta de mim. Ela insistia, e, eu, muda, nada respondia. Por fim, ela adiantava: “caminhão”. Eu me silenciava. Constrangida, calava-me. Não compreendia.
O ano passou, e, por fim, fui matriculada no primeiro ano da escola pública. A professora dividia o quadro em colunas e pedia para que nós repetíssemos: BA-BE-BI-BO-BU/ PA-PE-PI-PO-PU/ LA/LE/LI/LO/LU....
            Mas...era isso? A ficha parecia ter caído. Como assim tão fácil? E, eu, entusiasmada, repetia as sílabas. Depois disso, as sílabas cresceram em minha mente, tornando-se palavras, sentenças... E quando menos esperava, me surpreendi lendo. Queria escrever histórias. Que tal a do cachorrinho que se chamava Bolinha de Gude?  Perdeu-se da sua dona, que, claro, assim como eu, a dona teria que ter a minha idade, 7 anos, e, no final, o cachorrinho teria que ser encontrado.
            Essa história vinha à exaustão. Enchia uma folha de papel e a leitora era sempre a minha mãe. Até que um dia, ela abriu o jogo: “A história do cachorrinho é bacana, mas você pode escrever sobre outro assunto também”. Ah! ..Os contos de fadas... Soldadinho de chumbo, Os cisnes selvagens, Barba ruiva. Não me conformava com o final triste do soldadinho, olhando para a bailarina com olhos apaixonados, enquanto se queimava no fogo, nem com os irmãos da princesa, que, encantados, transformaram-se em cisnes selvagens, e muito menos com as maldades do Barba ruiva! Depois, vieram as aventuras: Robson Crusoé, História do Mundo para as crianças, As viagens de Marco Pólo....
            A leitura com o passar do tempo se transformara num vício bom. Difícil era parar. Já com os meus 14 anos, me apanhava na biblioteca de meu pai, lia tudo: Cândido ou o Otimismo, A mão e a luva, Otelo.... Entender ou não? Eis a questão. Mas, ler já se tornara precisão, necessidade... Algo como dormir, comer, namorar...



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