CONHEÇO DE VISTA E DE TOPETE
Frans de Lourenço
Quando vou para o trabalho, de vez em quando, entra no ônibus um rapaz alto, de pele bem escura, e entre aqueles que são chamados mulatos, para muitos, ele é um mulato fechado. Como é alto, de compleição robusta, para outros, ele é sacudido. Ou seja, na linguagem do povo, esse moço, de quem eu falo, é um mulato fechado e sacudido.
Em um determinado ponto, já fico sabendo que tal rapaz há de seguir viagem comigo, porque com o ônibus já se aproximando do ponto, já avisto seu realçado topete louro claríssimo, se mexendo pra baixo, pra cima, ora para a direita, ora para a esquerda. Tal topete, retesado por um gel, tem uns cinco centímetros de altura, bem uns dez de largura, e vai retilíneo, desde a testa até a nuca, onde se afina. Dos lados da cabeça, cabelo rente ao couro cabeludo, num corte que lembra os punks. É assim que entra no ônibus esse mulato fechado e sacudido: exibindo seu cabelo ultramoderno, um topete louro, louríssimo, tão na moda, como estão os vermelhos, os azuis, os roxos, os verdes.
Ainda outro dia peguei o ônibus quase no final da manhã, quando a moça que estava sentada comigo se oferece para levar a mochila de um amigo seu. E conversa vai, conversa vem, ele diz a ela que passou na prova de seleção de uma grande empresa e que já estava fazendo os exames médicos admissionais; e que agora tinha conseguido um bom emprego, que lhe garantiria a faculdade e a ajuda em casa.A moça, observando o amigo, foi dizendo que ele estava aparentando ser um homem mais sério, responsável, que estava muito diferente, quando, então,entre risos, solta a pergunta:
- É por isso, por conta do novo emprego, que você tingiu o cabelo de preto, tirando aquele loiro loiríssimo?
Foi aí que eu pus atenção no rosto daquele moço, cujo cabelo preto e crespo, encobrindo por igual toda a cabeça, não deixou que eu percebesse que ele era o dono do topete louro!Olhando-o de viés, depois da revelação ,conforme fui reparando, aquele moço não me parecia assim mais tão desconhecido. Sem dúvidas, era ele mesmo, o Sol na Moleira, como eu o apelidara.
- Quando eu estiver trabalhando, esticava o rapaz a conversa, dependendo de como for a empresa, o pessoal da empresa, ou fico com o cabelo na sua cor natural, como estou agora, ou volto para o louro, que tanto me agrada.
- Você não tem base não, concluiu a moça, com voz sorridente.
Ela usou esta fala – não tem base – apenas como força de expressão, como sempre a empregamos, quando queremos esticar um assunto ou mesmo pôr fim nele. Para mim, esse inteligente rapaz tem uma base bem sólida, pois, quando quer ou precisa, “camaleona-se.” É certo que, para nos darmos bem na vida, precisamos ser muitos e, engessado, nem todo mundo é, graças a Deus! Não vale a pena. Navegar é preciso, viver, a nossa fantasia, também, é preciso!
E por eu não ter reparado no rosto desse rapaz, que não sei se ainda vou encontrar no cedinho das minhas manhãs, não se perguntem: “Como é que pode? Ver o topete e não ver o rosto?” Nem me achem esquisita, avoada. É que eu reparo pouco nas coisas, as coisas é que se fazem reparar, e o que se me mostrava naquele rapaz era, unicamente, seu pavoneado topete, o qual, destituído de sua louridão, deixou o seu ex-portador desconhecido para mim. E também, de vez em quando, eu me aparto de mim e não navego; vivo. Como agora, escrevendo esta crônica.
Em um determinado ponto, já fico sabendo que tal rapaz há de seguir viagem comigo, porque com o ônibus já se aproximando do ponto, já avisto seu realçado topete louro claríssimo, se mexendo pra baixo, pra cima, ora para a direita, ora para a esquerda. Tal topete, retesado por um gel, tem uns cinco centímetros de altura, bem uns dez de largura, e vai retilíneo, desde a testa até a nuca, onde se afina. Dos lados da cabeça, cabelo rente ao couro cabeludo, num corte que lembra os punks. É assim que entra no ônibus esse mulato fechado e sacudido: exibindo seu cabelo ultramoderno, um topete louro, louríssimo, tão na moda, como estão os vermelhos, os azuis, os roxos, os verdes.
Ainda outro dia peguei o ônibus quase no final da manhã, quando a moça que estava sentada comigo se oferece para levar a mochila de um amigo seu. E conversa vai, conversa vem, ele diz a ela que passou na prova de seleção de uma grande empresa e que já estava fazendo os exames médicos admissionais; e que agora tinha conseguido um bom emprego, que lhe garantiria a faculdade e a ajuda em casa.A moça, observando o amigo, foi dizendo que ele estava aparentando ser um homem mais sério, responsável, que estava muito diferente, quando, então,entre risos, solta a pergunta:
- É por isso, por conta do novo emprego, que você tingiu o cabelo de preto, tirando aquele loiro loiríssimo?
Foi aí que eu pus atenção no rosto daquele moço, cujo cabelo preto e crespo, encobrindo por igual toda a cabeça, não deixou que eu percebesse que ele era o dono do topete louro!Olhando-o de viés, depois da revelação ,conforme fui reparando, aquele moço não me parecia assim mais tão desconhecido. Sem dúvidas, era ele mesmo, o Sol na Moleira, como eu o apelidara.
- Quando eu estiver trabalhando, esticava o rapaz a conversa, dependendo de como for a empresa, o pessoal da empresa, ou fico com o cabelo na sua cor natural, como estou agora, ou volto para o louro, que tanto me agrada.
- Você não tem base não, concluiu a moça, com voz sorridente.
Ela usou esta fala – não tem base – apenas como força de expressão, como sempre a empregamos, quando queremos esticar um assunto ou mesmo pôr fim nele. Para mim, esse inteligente rapaz tem uma base bem sólida, pois, quando quer ou precisa, “camaleona-se.” É certo que, para nos darmos bem na vida, precisamos ser muitos e, engessado, nem todo mundo é, graças a Deus! Não vale a pena. Navegar é preciso, viver, a nossa fantasia, também, é preciso!
E por eu não ter reparado no rosto desse rapaz, que não sei se ainda vou encontrar no cedinho das minhas manhãs, não se perguntem: “Como é que pode? Ver o topete e não ver o rosto?” Nem me achem esquisita, avoada. É que eu reparo pouco nas coisas, as coisas é que se fazem reparar, e o que se me mostrava naquele rapaz era, unicamente, seu pavoneado topete, o qual, destituído de sua louridão, deixou o seu ex-portador desconhecido para mim. E também, de vez em quando, eu me aparto de mim e não navego; vivo. Como agora, escrevendo esta crônica.

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